Cold Crows Dead - I Fear A New World
80%Overall Score

Logo de caras no site do colectivo em forma de prefácio, lê-se a frase The Crow is coming. Feed the Crow. O Corvo alimenta-se de quem o ouve, de quem lhe dá atenção, de quem no final fica cheio de vontade de o mostrar aos amigos. Temos em escuta o disco de estreia de Cold Crows Dead entitulo I Fear A New World e editado a 2 de Dezembro pela Raygun Records. O projecto nasce da colaboração entre Murray Macleod, líder dos The Xcerts e Paul Steel, produtor e letrista, conhecido pelo trabalho com Mika, Empire Of The Sun, Pnau, entre outros.

Numa tentativa de definir e apresentar os Cold Crows Dead, peguemos em três bandas: The Xcerts, Sparklehorse e The Beach Boys. Aparentemente, não existe entre elas um fio condutor, mas aprofundando a busca, encontramos as ligações: este disco é o resultado de Murray e Paul terem composto um tema após a morte de Mark Linkous dos Sparklehorse, influência importante para ambos. Tema, esse, que acabou por se multiplicar cumplicemente por 11 temas, dois deles com a participação do poeta e compositor Stephen John Kalinich, que nos anos 60 escreveu letras para os The Beach Boys. Há, realmente, neste disco uma atmosfera que lembra os anos 60. The Xcerts juntam-se para tornar possível a apresentação ao vivo do registo mas, definitivamente, para além da voz em comum, há uma fronteira feita de diferença sonora e temática que os separa da identidade própria deste projecto.

Estamos perante um disco indie pop que pisca o olho à electrónica de outros tempos, carregado de escuridão e densidade temática e que recorre ao uso de instrumentos tão variados e exóticos como o theremin, levando-nos a ambientes etéreos; o mellotron, sintetizadores analógicos, instrumentos de cordas e de sopro, distorção de vozes e sons gravados em sítios tão insólitos como lavatórios de casa-de-banho cheios de água! É um disco feito de ambientes góticos e, não me entendam mal, prestem atenção às letras.

O começo com “Ghost That Burned Your House Down”, deixa a frase que vai ficar a marcar a dúvida “I’m not a shadow, I’m not a silhouette, I’m not the ghost …” Um dos principais destaques vai para o tema “Man In Bleak”, pela declamação do texto fortíssimo feita por S. J. Kalinich: “I’m a man in bleak and I’m a beggar” – e onde no final se escuta a frase que dá título ao disco: “I fear a new world but I welcome it”. “Deadheads” convida ao movimento e é um dos temas mais lúgubres do conjunto: “we watch you when you sleep / we want skin and teeth, we have nobody”. Também por aqui se encontra a canção de amor perfeita (dentro do género!): “Screaming At Shadows”. O desespero na calma e aceitação da realidade em “Gone”, terminando com a prece chorada em sons arrepiantes “someone save us!”. O final, com “Devils Won”, pode ser aceite como a moral da história contada desde o primeiro tema.

Num mundo de ligações e realidades paralelas, este disco poderia ter sido um livro escrito por Edgar Allan Poe ou um filme realizado por Tim Burton.