Aaron Holm é já um ás nas composições experimentais, juntando ambiente e electrónica numa cartola, como se fosse ilusionista. Este seu vício com a envolvência de um local remete à sua visita ao Sudeste Asiático onde, entre o Laos e o Vietname, levou nos ouvidos um arsenal bem composto de projectos nestas ondas sonoras, que em tudo pintaram a sua experiência. Seria em Toronto, no Canadá, na zona da Chinatown que, na década de 90, montaria o seu primeiro estúdio dedicado exclusivamente à música electrónica.

E, desde então, não parou de criar e de procurar os ruídos mais variados da humanidade. Massive Atack, Brian Eno, Future Sound of London, Aphew Twin ou Björk são algumas das influências de Holm que conta já no currículo com gravações e misturas de sons tropicais, de cantos de pássaros ou de hordas humanas na Índia e no Paquistão. Um caçador de texturas, cores, sabores e tonalidades que compõem as várias possibilidades da vida humana, mas não colocando algumas interpretações suas de parte. Cada mundo imaginário, frenético ou deliciosamente sossegado, ganha corpo com as suas faixas.

Com este novo álbum, The Boy, não encontramos excepção. Aaron Holm torna-se pai e tem outra visão dos mundos, não está, por assim dizer, sozinho. Nessas perspectivas, explora a violência e a isolação que as grandes cidades geram e fomentam enquanto, ao mesmo tempo, na faixa “Little One”, ouvimos em toda a melodia uma voz feminina dizendo, com doçura, “little one”, ecoando e evocando essa criança que, no fundo, representa todos os filhos da terra, para que regresse e tenha amor mas simultaneamente atenção ao mar, que é, também, essa voz feminina e delicada, nesses cinco minutos e meio de devoção pura aos elementos que transcendem o homem, mas que dele fazem, também, parte. Na mística dos ambientes da Natureza, que são inerentes às criações de Holm, vejamos, por exemplo, a imagem da capa do álbum, exibindo uma floresta a arder. Deixamos que a composição nos engula e sentimo-nos até a pairar, levitando com muito realismo, se ousarmos fechar os olhos.

Holm, que em tanto é ambivalente, em cerca de onze anos criou três companhias tecnológicas, no seu hiato musical, e é um apoiante de organizações que salientem o trabalho da juventude urbana, sobretudo através da fotografia e da composição musical. Destaque também para “Catch A Falling Star”, faixa com inspirações tristes, compondo a história de um pai que se vê destroçado aquando do tiroteio na Sandy Hook Elementary School, faixa essa que tem vozes de crianças, também, e que em tudo se torna imediatamente pessoal, reflectindo o amor para com o seu filho.

Taylor Deupree, Susumu Yokota e Jon Hopkins são alguns dos colaboradores deste novo álbum que aí vem, repleto de equações musicais de grande alcance. Aaron Holm tentou compor o momento em que sente e assiste a situações para as quais não tem explicação e que o transcendem por completo. Podemos recordar-nos de, na infância, levarmos as emoções tão a peito e nascerem tantas dúvidas e questões em situações que, na altura, nos pareciam colossais e impossíveis de resolver. E, muitas vezes nesse contexto, na infância ou na idade adulta, limitamo-nos a olhar, a deixar acontecer, a estar presentes sem modificar a acção de tudo.

Aaron Holm já produz desde 2000, aquando do lançamento do álbum de estreia, Still Dreaming, constantemente experimentando ambientes ricos e variados e atraindo às suas obras paisagens electrónicas, em tudo humanas, em tudo naturais. Em 2013 funda a editora Dissolve Records, que lança agora The Boy, já no final do mês de Julho. Este assombroso, mas belo álbum, mune-se de harmonias que tanto podem adormecer quem as ouça como acordar desvairadamente e dar o ímpeto de escalar montanhas. Isto, sim, é puro feitiço.