Após dois anos com o pé na estrada, o recifense Johnny Hooker chega com seu segundo disco de estúdio, intitulado Coração. Produzido graças ao projeto Natura Musical – responsável por outros trabalhos de sucesso na música brasileira contemporânea -, o LP de 11 faixas mostra-se fiel à estética e sonoridade que o artista apresentou no álbum antecessor Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! (2015).

Mas ele vai além: aqui, o cantor faz uma espécie de colagem sonora da cultura brasileira e suas diferentes vertentes, entregando um resultado multifacetado e ainda fiel à sua estética. Coração começa no mesmo lugar que Macumba deu as caras: uma desilusão amorosa que é o primeiro passo rumo à transformação interna que, no fim das contas, abre os olhos do artista, não só sobre o homem por quem ele antes era apaixonado, mas também sobre a vida. A paleta de gêneros musicais pelos quais o disco transita é tão vasta quanto a própria cultura brasileira, como se cada cidade por onde Johnny passou na sua última turnê tivesse contribuído com um som. E, dentro dos próprios ritmos que já apareciam pelo repertório do recifense, há um mergulho ainda mais profundo naquilo que ele já indicava desde seu LP de estreia Roquestar (2011).

A “Intro” que abre o trabalho contextualiza logo de cara a imagem que o artista criou para a capa do disco com a ajuda de Filipe Catto e Alma Negrot: um ser que renasce do mar após um amor perdido e com o “corpo fechado”, pronto para mais uma luta. Para completar a mensagem, a sequência traz o pop rock enfurecido de “Touro”, um dos destaques do alinhamento onde a voz imperativa do cantor transborda determinação para “começar de novo”, acompanhada por palmas constantes e guitarras distorcidas. “Eu Não Sou Seu Lixo” bebe na mesma fonte do samba que já abasteceu Elza Soares e Beth Carvalho, com grandes goladas de remorso e desprezo.

A voz rasgada mistura-se com deboche na deliciosa “Corpo Fechado”, parceria com Gaby Amarantos que convida a uma dança de umbigo colado com o melhor do carimbó. O diálogo entre os artistas ao longo da música passa uma leveza e descontração contagiantes para quem está ouvindo, enquanto ambos se consolam pelos “boys lixo” que encontram pelo caminho. A sofrência, afinal, aparece em “Página Virada”, na qual Johnny assume o eu lírico feminino para chorar um romance que nunca saiu do “quarto de bar”. Acompanhado por uma orquestra, ele resgata a melancolia passada de músicas como “Segunda Chance” numa performance tão dramática quanto clássicos como “Atrás da Porta” (Chico Buarque / Francis Hime). Aqui, a potência vocal de Hooker é exibida nos vários níveis emocionais pelos quais a música transita, prometendo um dos pontos altos de seus próximos shows.

O investimento no seu segundo projeto de estúdio também permitiu que Johnny expusesse as suas ambições criativas em maior escala, gerando outros momentos de grandiosidade como “Flutua”. Primeiro single e parceria com Liniker, o blues é uma ode ao amor sublime, com performances vocais que fazem jus a uma produção majestosa e acompanham a sua evolução até à explosão final na repetição dos versos “ninguém vai poder querer nos dizer como amar”. Uma mensagem que se torna ainda mais forte quando se leva em consideração que o vídeo da música foi censurado no Youtube por mostrar os dois artistas beijando-se na foto de capa.

A coerência pop entre as diferentes camadas de instrumentais e os versos afiados aparece de novo mais tarde, em “Poeira de Estrelas”, uma homenagem lúdica a David Bowie. Inevitavelmente, o Coração de Johnny acaba voltando para a folia carnavalesca com o frevo eletrizante de “Escandalizar”. Depois de ter renascido, amado, perdido e se jogado no verão com o axé baiano das sedutoras e tropicais “Caetano Veloso” e “Coração de Manteiga de Garrafa”, o rapaz de Recife ainda não esqueceu que nada cura melhor do que um desbunde geral. É como se depois de chorar e quase se dar por vencido, ele tenha-se deparado com uma daquelas pichações que tomaram o Rio de Janeiro nos últimos meses e regurgitasse de volta a mensagem para seus ouvintes: “Não se mate, ano que vem tem Carnaval”.