Erguem oceanos, crescem entre ventos e mares e, deambulando num universo turbulento, prosseguem invictos os heróis lusitanos indignu [lat.]. Depois de uma épica Odyssea surge o drama de Ophelia, um disco que recupera sonoridades do embrionário Fetus In Fetu. Dentro do post-rock parece caber tudo, de Swans a Tortoise, tornando-se um género ambíguo e pouco classificativo; mas é por esses mares que podemos encontrar a banda de Barcelos, remando contra a corrente sem medo de naufragar.

Estivemos à conversa com estes epopeicos músicos que já apregoaram a palavra portuguesa naquele que é provavelmente o festival mais importante do género, o Dunk! Festival na Bélgica, onde foram considerados banda revelação mas, como nos dizem, “chegámos a Portugal e… puff”. Com a recorrente característica da projecção internacional ser maior do que em Portugal, os indignu contam agora com três LPs e garantem que “cerca de 60 % dos discos do Ophelia que já vendemos foi lá fora e não temos distribuição, nem cá nem no estrangeiro… Talvez por sermos uma banda instrumental, seja mais universal quebrar a barreira da língua”. Actualmente completamente independentes de editoras, mesmo na edição do disco em vinil, continuam a agenciar-se, mas falam-nos da recente possibilidade de contrato com uma editora chinesa com interesse em editar o disco em CD: “O mercado americano e europeu está já saturado e mais facilmente uma editora asiática pega numa banda como nós do que uma europeia. O mercado das ‘labels’ mais independentes está muito complicado”, confessam.

Ver indignu não é uma experiência frequente: “No espaço de dois anos tocámos em Espanha, no teatro de Ponte de Lima e no [festival] Bons Sons, por isso demos três concertos. É por isto que tentamos que um concerto de indignu seja o mais especial possível. Estão a surgir mais coisas para o início de 2017 por todo o país e para Abril/Maio já está prevista qualquer coisa para a Europa”. Simultaneamente, desabafam que, por vezes, é complicado reunir as condições ideais para um bom espectáculo, o que é compreensível, dado ao número de músicos e toda a estética que envolve o grupo. Apesar de toda a ambição e planeamento da tour, os indignu têm previsto um grande concerto no Hard Club, no Porto onde podem “pôr a carne toda no assador. É o sítio que nos parece mais indicado para apresentar o Ophelia”. Dizem-nos, de uma forma evidentemente genuína “Queremos que seja um concerto marcante, estamos a apostar tudo. Vai ser um concerto sem dúvida especial o que vamos dar a 2 de Dezembro, e por isso queríamos que fosse num sítio especial. Não surgiu em Barcelos, nem em Lisboa, mas sim no Porto, também no Norte, a nossa zona de conforto, embora tenhamos sido muito solicitados para tocar em Lisboa. Mas infelizmente, em termos logísticos, não é tão fácil como pode parecer”.

indignu [lat.]

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São seis os elementos que comandam a caravela, e com as pontas dos dedos vão rodando os instrumentos entre si, obedecendo frequentemente a uma secção rítmica de baixo e bateria que caracterizam como tendo um papel “não muito comuns para o que são os cânones do post-rock”, uma wall of guitars construída com dois alicerces e um par de violinos, algo que lhes dá liberdade em termos de composição e até mesmo uma maior dinâmica ao vivo. Contam-nos como vêem a o rótulo de post-rock que, apesar de aceitarem e muitas vezes eles próprios o utilizarem, por vezes julgam “redutor caracterizar assim a música de indignu. É um género que se confunde em si mesmo. Sigur Rós e mùm dificilmente se enquadram na mesma cena que Tortoise, o mesmo acontece com Mogwai. O género começou a condicionar muito a música e reduziu-se tudo a ‘crescendo’, ‘crescendo’, ‘crescendo’… Descrevemos a nossa música como simplesmente alternativa porque é o reflexo do que sentimos; não procuramos nada, vem tudo ter connosco”.

Desde a “Montanha Negra” ao “Mar do Norte”, de “Jerusalém” à serra de Santa Helena, tudo tem génese na banda como colectivo. A banda falou-nos do seu método e processo criativo, de que forma vão desvendando o território e explorando tudo o que envolve a música na sua criação. “Normalmente começamos com uma jam de baterias, guitarras e baixo e aparece o violino como se fosse a voz da banda; no entanto, no Ophelia, não aparece tanto.” Há quem diga que o Ophelia nasce do feto Fetus In Fetu e do Odyssea mas a banda afirma que “o álbum tem uma identidade própria, foi um disco feito de duas formas, de momentos diferentes. Foi gravado em duas vezes num momento mais clássico e noutro que nos levou mais ao rock e à música mais pesada. É engraçado, porque se forem ver o percurso da banda vêem que passamos do menos vinte a um nível considerável. Não nos envergonhamos do passado mas o nosso ponto 0 é o Fetus In Fetu. Ophelia nasce em berço de ouro: “Ter um álbum é como ter um filho” dizem-nos, com um olhar paternal. “Nunca sabemos como vai ser até nascer. É assim que pensamos nele, que lhe atribuímos a conceptualidade, neste caso os dois lados distintos”. Ainda que recém-nascida, esta é já uma banda que se alimenta sozinha e se mostra independente. E mesmo quem não conhece o trabalho dos barcelenses é anexado ao drama numa fome insaciável e de uma forma surpreendente.

A história dos indignu, escrita sem palavras – ou com a escassez delas -, é bonita. “É uma história de verdade e que cresce com quem gosta dela e com o apoio de quem a segue”, cantam com orgulho. Ophelia sai do lago e deu um salto ao Mercado Ferreira Borges, hoje Hard Club. O disco em vinil, edição de autor com 300 exemplares, será vendido a um preço mais baixo nos concertos. Com a promessa de uma noite especial, Ophelia vai cantar sem voz, em tom certamente épico; com o choro de guitarras e o grito de violinos, vibrará a pele e palpitarão corações.

Hoje, dia 2 de Dezembro no Hard Club, a epopeia terá mais um capítulo e será dramático não aparecer.

indignu [lat.]

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