O cometa ISON era um cometa – que desapareceu e se transformou numa chuva de detritos em 2013 aquando da sua passagem rasante pelo sol -, descoberto em 2012 por dois cientistas russos. Baptizado carinhosamente de “Cometa do Século”, pensava-se que iria passar bem pertinho de nós e que seria avistado da Terra como se fosse uma segunda enorme e brilhante lua durante a sua trajectória mais próxima ao planeta azul. Ison desfez-se e não nos desceu o espectáculo de uma vida, mas deu-nos o nome para o culminar do aparecimento de uma das mais estimulantes constelações sonoras que ganhou forma nos últimos dois anos. Leia-se e entenda-se, Sevdaliza.

Ison é o título do disco de estreia da cantora irano-holandesa, editado em abril deste ano pela Twisted Elegance (curiosamente ou não nome de um disco de Janet Jackson, uma das grandes influências assumidas de Sevda Alizadeh), que chega agora a Portugal para a estreia em palcos nacionais em pleno acto de expansão e de crescimento na tomada de posição da cantora enquanto dínamo criativo e aglutinador de estilos e sonoridades atraindo à luz do seu brilho vanguardista e misterioso olhares e ouvidos vindos dos mais variados quadrantes.

Assente essencialmente mas de todo em exclusivono r&b, Svedaliza colocou na sua órbita, com apenas um álbum e vários singles desde 2015, gente vinda da vertente mais pura dessa escola, bem como amantes de trip-hop, pop, das franjas alternativas da electrónica, do art e do pop-experimental. Sem necessidade de recorrer a associações mas facilitando a observação do fenómeno Sevdaliza, a cantora e compositora nascida em Teerão, move-se nas mesmas camadas de som sem rótulos de FKA Twigs, de Björk ou dos Portishead sem retirar qualquer do impacto que qualquer uma das grandes divas como Etta James ou Erykah Badu tem na sua obra.

Sevdaliza toca em novembro no Vodafone Mexefest juntando-se assim a um cartaz cada vez mais heterogéneo onde coabitam as mais variadas urbanidades sónicas, deixando para trás o pendor mais alternativo dos últimos anos mas mantendo-se como alternativa indispensável à descoberta de novos nomes e ao mesmo tempo afirmando-se como um cartaz de classe e maturidade.

Provando-o está também a confirmação de Paulo Bragança, o sebastiânico fadista que regressou este ano para reclamar a si aquilo que nunca deixou de ser seu: um papel fundamental num estilo que se expandiu durante a sua ausência mas que precisa da sua leitura bizarra e futurista, da sua abordagem marginal e tradicionalista para recordar que o fado é algo mais que um mero objecto turístico. Depois de alguns concertos durante o verão, nomeadamente os concertos imensos no festival Bons Sons e no Festival Entremuralhas, Paulo Bragança prepara-se para tomar para si a capital, uma subida ao trono do fado, da cidade, do país. Ainda sem disco novo com previsão no horizonte, Bragança está em fase de escrita e composição ao lado de Carlos Maria Trindade, nome ligado umbilicalmente a dois projectos seminais da música portuguesa, Madredeus e Heróis do Mar.

A Sevdaliza e a Paulo Bragança alia-se também Mahalia para engrossar as fileiras já de si carnudas do festival lisboeta. Nascida em Leicester mas com raízes na Jamaica e na Irlanda, Mahalia não disfarça em nada a abordagem pop mas refina-a até quase a esconder por entre abordagens acústicas ao cancioneiro soul, a investidas hip-hop e a levezas campestres folk. Com apenas um disco, Diary Of MeMahalia estreia-se também em Portugal no Vodafone Mexefest onde tocam também Aldous Harding, Allen Halloween, Benjamim e Barnaby Keen, Cigarettes After Sex, Childhood, Destroyer, Ermo, Everything Everything, Hinds, IAMDDB, Julia Holter, Karlon, Liars, Liniker e os Caramelows, Luís Severo, Manel CruzMOMO convida Camané, Moullinex, Oddisee, Orelha Negra, PAULi, Songhoy Blues, Statik Selektah, Valete e Washed Out.