Eles vêm de Nova Iorque, trazem consigo purpurina, glitter e glam e a sua linhagem vem dos meandros mais selvagens e exploratórios das paisagens criadas no CBGB. Os White Hills desde 2005 que têm vindo de boa maneira a tornarem-se bastiões bem fiéis a todas as linguagens e dialectos do rock: refrães orelhudos, som ensurdecedor, coolness a transbordar das personas Dave W. e Ego Sensation, e uma atitude extravagante e cósmica que jorra desde as tântricas texturas que fazem a sua música até às sempre certeiras e carismáticas escolhas de indumentária. O duo, desde o início do seu extenso catálogo, sempre se foi marcando, de uma maneira ou de outra, como uma natural força de movimento constante. Tal como as espaciais influências que tingem um som que se encontra com o kraut, o industrial e praticamente todas as variantes de psicadelia, os White Hills operam na égide do ritmo e do ruído absorvente, na repetição incessante usada em nome de uma missão urgente: a não conformidade. Se há algum ano em que isso não podia ser mais verdade, é o ano de 2017, aquele os vê lançar Stop Mute Defeat, o sétimo longa-duração e aquele que mais claro e pragmático se apresenta, quer em forma quer em conteúdo: os White Hills não querem que ninguém nos tire a liberdade.

Assim, o Sabotage recebeu uma banda já querida em Portugal e uma que se vê mais perigosa e militante do que nunca, algo que não se esconde de todo com temas chamados “Attack Mode” e muitos outros armadilhados com máximas imperativas de contestante natureza. Os White Hills apresentaram-se como de costume: as doses elevadas de estilo, as rock n’ roll faces e as poses de instrumento na mão a erguer uma espectáculo visual tão estimulante e cool enquanto a música nos entrava pelos ouvidos e ecoava firmemente em pesada repetição. “We are what you see and what you need, we are what you are and you will be”, assim começou a banda, com um motivo totalista e totalitário que, tirado de “We Are What You Are”, de Walks For Motorists, bem serviu como um eficaz prelúdio ao Stop Mute Defeat que vieram apresentar. A paranoia de controlo que cada vez mais se parece afunilar para a verdade, bem como o militante grito de revolta pela liberdade que se expressa nos tambores sintéticos e mecânicos e na electricidade estática das cordas, são dois elementos que neste novo disco surgem impossíveis de ignorar e são a gasolina para todo o inflamável rock que está a acontecer neste palco.

Dave W. esperneia-se e torce-se na pequena área a que tem direito à medida que, juntamente com os seus colegas, ergue a dramática e lenta “Entertainer”. “Are you there?”, perguntam-nos depois de um de cada vez proferir o horripilante comando de “Entertain Us”. A alienação ecoa gigante e arrepiante na versão de estúdio, com as distopias de Carpenter a erguerem futurísticos arranha-céus sem vida através de um exímio trabalho de sintetizadores, mas ao vivo a carga é muito mais carnal e garage e a experiência é mais das sensações do que do intelecto. Se no disco (altamente polido e brioso na sua produção) o grupo deixa que a mensagem vá descendo pelos ouvidos até ao cérebro, aqui ao pé de nós é tudo esfregado na cara num equilíbrio vertiginoso entre a eficácia e o aparato: Ego Sensation, através de um bass tone lendário a puxar aos grooves mais molhados do stoner mais clássico, faz-nos mexer de um lado para outro numa dança que é cada vez mais serpentina e sensual do que os tempos mais abrasivos e mono tonais do grupo enquanto Dave W. lança tudo o que tem contra nós: riffs cobertos do mais ensurdecedor fuzz, solos híper-espaciais e quase literais raios laser de perfurador som disparados de um demoníaco sampler. Não há aqui ciência nenhuma: os White Hills têm as malhas e têm o caparro para nos arrasar – ainda para mais quando ao vivo a drum machine é substituída por um kit, mudança que todo o sentido faz quando olhamos para a qualidade tribal e xâmanica que a cunhada repetição do grupo ganha contra a faceta mais tecnológica e limpa que o disco mostra.

Todas as armas valem para combater o conformismo e o veneno da inacção que as novas tecnologias podem também trazer consigo e os White Hills, seja na pose mais autoritária e abrasiva ou na exploração mais groovy e solta, vão testá-las a todas num consistente e belíssimo concerto de rock n’ roll que não se redime. O psicadelismo sempre acabou por se enraizar numa fome de liberdade, um estado de espírito desenhado para nos colocar num lugar mais “desperto” e “saudável” que alguns não acreditam pertencer à civilização. Tal como José Cid e outros já haviam proclamado, de que serve apenas a fuga quando com a música e a cultura podemos ter uma das mais eficientes armas para relevar toda a verdade e acordar o espírito crítico adormecido. Os White Hills continuam nesse caminho traçado por muitos, velozes e gloriosos, pesados e fluorescentes e na forma da sua música tântrica, e autenticamente livre das coisas terrenas, encontram um esquema explosivo que se entranha e nos absorve por dentro em poderosa repetição e fantasia que nos encantam mas não nos atiram para um oco poço de escape. A mensagem, por muito simples e descomplexada que seja persiste, e depois de um barulhento concerto não foram só os riffs que nos ficaram a repetir na cabeça.