Quando as portas do Hard Club, viradas para o Douro, assoladas por uma gélida penumbra que caíra sobre a Invicta, se abriram para receber os Covenant, muito tinha mudado. Desde a banda, ao próprio Hard Club – geográfica e logisticamente -, e mesmo a cidade em si. Esta é uma verdade incontrovertível. Mas é também verdade que, e pese embora o peso das mudanças, há coisas que nunca perdem a identidade. E, neste caso, nenhum dos elementos se tornou indistinguível. A banda mudou com a saída de Clas Nachmanson em 2007, membro prontamente substituído por Daniel Myer. O Hard Club mudou-se de armas e bagagens da zona ribeirinha de Gaia, ocupando agora o espaço do Mercado Ferreira Borges e embora com alguma expansão natural para outros mercados e tipos de eventos face ao antigo Hard Club mantém-se, todavia, como um dos palcos maiores do Norte. A cidade, essa, embora mostre alguns sinais de uma crescente gentrificação, nunca deixa de ser o que é: quente, acolhedora, genuína, plena de vida, de uma singular beleza. Mas há que ressalvar que entre a última vez que os Covenant pisaram palcos os portuenses e o agora distam 14 longos anos. O concerto de 2004, no antigo Hard Club, perdura na memória de quem esteve presente como um evento ímpar. Não esquecendo a presença dos suecos no celebrado festival Entremuralhas em 2010, era aqui e agora, contudo, que as expectativas se centravam.

Era um domingo, é certo, e a noite sentia-se fria, muito fria, embora sob um céu limpo. Chegados ao Hard Club, memórias do distante concerto rapidamente preenchem o imaginário; memórias de um concerto sempre com um ritmo frenético de uma casa cheia, de um mar de corpos perdidos na dança, suor a escorrer pele abaixo, gritos, saltos, músicas cantadas a par com o vocalista, versos incontáveis decorados de uma ponta à outra, quase como que calcados na mente. A primeira impressão ao chegar – aquela que se diz a mais importante -, foi a distinta ausência de público. Talvez fosse ainda cedo. De facto, faltariam ainda alguns minutos até que as portas da sala nº 2 do Hard Club se abrissem e algumas pessoas iam entretanto ou comprando o bilhete.

Hot Pink Abuse @ Hard Club

Durante a espera que se revelou relativamente breve, e olhando para os poucos – e fiéis – presentes, encontrou-se gente de vários recantos; de Leiria, de Coimbra, de Lisboa, certamente havia mesmo quem tivesse vindo de mais Sul ainda. Compreensível – os Covenant têm uma legião de admiradores por esse mundo fora e são daquelas bandas que quem gosta, e passe o cliché, gosta a valer. A pergunta que se impõe é porque razão estariam tão poucas pessoas presentes. O concerto foi certamente bem publicitado – há que louvar, aqui, o trabalho da MIMO. É uma banda cotada, reconhecida, apreciada e notada pela intensidade dos seus concertos. Seria a data escolhida? Ou a crescente oferta que temos nos dias de hoje? Foi entre cumprimentos a caras tão conhecidas, de há tanto, e umas palavras trocadas com outras de forma a avaliar as expectativas de quem compareceu, que surgiram em palco os Hot Pink Abuse, a banda responsável pela primeira parte do concerto.

De notar o efeito imediato que teve esta entrada: a sala pareceu ficar mais cheia; haveria, certamente, quem ainda estivesse no exterior ou a caminho do Hard Club. Com o avolumar do número de pessoas na sala nº 2 – uma sala de interessantes proporções, com boa acústica e que, certamente, teria beneficiado de uma maior adesão do público – os Hot Pink Abuse demonstraram ser donos de uma sonoridade que co-existe algures entre o goth-rock tradicional, o synth-pop (aqui notórias as influências electrónicas) e uma sonoridade alternativa, fazendo lembrar, a espaços, bandas como os The Sisters Of Mercy. Talvez pela secção rítmica, que soou muito forte e muito coesa, com o baixo e bateria em perfeita síncope, aquecendo assim a noite que ainda se sentia fria.

Em palco, os Hot Pink Abuse revelaram-se um grupo homogéneo, bem treinado, cientes do que querem e que assume com orgulho as suas influências, debitando vários temas que, com alguma facilidade, contagiaram o ecléctico público presente. A completar – e a complementar -, a oferenda musical dos Hot Pink Abuse, destaca-se a voz da vocalista Rebecca Moradalizadeh que, associada a uma sensual e lânguida presença em palco, facilmente se tornava no principal foco de atenção. De notar que a voz de Rebecca, após alguma timidez inicial, foi ficando progressivamente mais confiante, mais forte, mais única, distanciando-se assim das suas influências, o que contribuiu para um set bastante compacto e agradável. Os Hot Pink Abuse provaram ser assim uma banda a acompanhar com atenção, dentro da cena electrónica e alternativa nacional.

Covenant @ Hard Club

O espaço de tempo entre a saída dos Hot Pink Abuse do palco e a triunfal entrada dos Covenant foi escasso. Mas foi tempo suficiente para se fazerem visitas ao palco ou para debater opiniões sobre a banda anterior, para se falar fosse do que fosse. Esse tempo, esse tempo, pareceu voar. E, ainda um pouco aturdidos, ainda um pouco ansiosos – ansiedade aumentada pelo apagar das luzes -, assistimos a um longo prelúdio instrumental que precedeu a antecipada entrada dos Covenant em palco. E que entrada! “Like Tears In Rain”, título retirado do imortal monólogo de Roy Batty em Blade Runner  com notória influência estética e lírica na banda, um dos seus grandes clássicos, anunciou em apoteose aquilo que se previa como uma noite para recordar. A última presença da banda em palcos portuenses é algo que não passa despercebido a Eskil, o carismático vocalista dos Covenant. “Bullet”, um dos temas maiores do álbum Northern Lights alumiou as almas que se movimentavam pela pista com o seu ritmo contagiante, num frenesim que ainda agora começava.

Os Covenant apresentaram-se aqui em formato dueto por motivo de doença de um dos membros da banda, mas o incansável Eskil parecia possuir a energia de uma legião, preenchendo o palco com a sua imensa presença. Considerando que se encontram em plena tour de promoção do seu mais recente álbum – The Blinding Dark – seria natural esperar alguma ênfase em temas mais recentes. E assim foi, seguindo-se um segmento dedicado a alguns dos principais temas do disco. A reacção do público não poderia ter sido melhor com o potente ritmo inicial imposto pela banda a manter-se. De destacar aqui “I Close My Eyes”, primeiro, e “Cold Reading” depois, com o vocalista como que a flutuar entre as névoas de fumo no palco que preencheram em pleno as medidas do público.

Covenant @ Hard Club

Regressando a um passado mais distante “Figurehead”, tema que conquistou incontáveis pistas de dança pelo mundo fora, incendiou a casa, tendo-se registado como um dos grandes momentos da noite. Mas nem só de temas possantes, cheios de beat e ritmos fustigantes se escreve a história dos Covenant. Também eles têm no seu compêndio musical temas de rara beleza – e isto sem perder nunca a electrónica fundamental. Retirado de Modern Ruin, álbum de 2011, apresentaram-nos “The Beauty and The Grace” que faz plena justiça ao seu nome, repleta de gracioso charme. A partir daí, a banda partiu em plena excursão pelo passado, o presente, o futuro, e, quem sabe, o eterno. “The Men” e “Ignorance & Bliss” pressagiaram um dos temas que fizeram dos Covenant uma das mais interessantes bandas dentro do panorama electrónico. Falamos de “Stalker”, uma torrente electrónica imparável e constante, seguida de “Lightbringer”, originalmente uma colaboração com os conterrâneos Necro Facility, mas aqui com Daniel Myer no papel de vocalista principal. Iniciou-se aqui um período de diálogo entre a banda e o público, com os Covenant a injectar constantemente energia e ritmo com a pujança das suas idiossincráticas batidas, continuando assim esta sagração electrónica com “Ritual Noise”.

Em noite de aniversário de Eskil Simonsson, todos se uniram numa sentida e inesperada cantiga de parabéns ao vocalista, que retribui o amor demonstrado ao dedicar a próxima música à cidade Invicta: “Call The Ships To Port”, aproveitando aqui a banda para fazer um jogo de palavras, fez a casa vir abaixo com esta dedicatória. Em jeito de despedida, os suecos – revelando uma salutar interacção com o público -, decidiu submeter a voto qual o tema com que deveriam concluir o concerto; o público clamou pela clássica “Dead Stars”, enquanto o aniversariante Eskil favorecia “We Stand Alone”. E é precisamente com esta que os Covenant optaram por encerrar esta visita aos palcos nacionais, a sua terceira. Não foi a escolhida pelo público, certamente que não, mas ninguém ficaria desiludido; numa perfeita demonstração de que embora possamos estar separados e distantes, nunca estamos realmente sozinhos, os Covenant sairam do palco após um breve – e curioso -, medley que ocupou os últimos momentos do tema final, recitando as palavras de “One World, One Sky”, tema épico da banda.

Ilações tiradas, aguarda-se um regresso da banda aos nossos palcos: tê-los por cá é um privilégio e vê-los ao vivo é uma experiência notável. Pese embora a adesão não ter sido a ideal – de certo, a organização do espectáculo, o recinto, e a banda mereciam uma casa bem mais composta -, elogia-se aqui a capacidade organizacional, visão e bravura da MIMO, esperando-se que continuem a apostar em bandas de semelhante calibre. Certamente que o futuro nos trará grandes nomes muito interessantes com a sua chancela.

Covenant @ Hard Club