Sintetizar, e meras horas após o anúncio de um ansiado regresso ao nosso país na ressaca de memoráveis e apoteóticos concertos no Porto (2004, Hard Club) e Leiria (2010, Entremuralhas), o que são e quem são os Covenant torna-se numa tarefa quase hercúlea, tais são as memórias associadas a esta banda. Mas, e sintetizando, e seguindo essa mesma palavra, Covenant é sinónimo de sintetizadores. De batidas pujantes e negras, elegantemente sincopadas por sequências e arranjos, dando corpo a uma voz típicamente Nórdica: capaz de nos gelar por dentro, ao mesmo tempo que desperta as mais recônditas emoções através das palavras interpretadas por Eskil Simonsson, vocalista e principal compositor da banda.

Mas reduzir Covenant, donos de uma carreira de quase três décadas, a esta rígida definição é redutor. Porque são mais, muito mais que isso. Das influências notórias dos primeiros tempos, onde se captam momentos de Kraftwerk, Depeche Mode ou Front 242, até aos momentos posteriores de afirmação, muito dos Covenant trata sobre a identidade, a sua definição, a sua procura. Nesta demanda, há elementos retirados das obras clássicas de Ficção Científica, da filosofia, do existencialismo. Da estética do cinema e da moda. E nestes últimos campos, o filme Blade Runner ocupa um enorme segmento do que forma a identidade dos Covenant, como testemunham temas como “Replicant” ou “Der Leiermann” (também em inglês, como “Like tears in rain”, frase retirada do carismático discurso final de Roy Batty, na obra de Riddley Scott).

A imagem é cuidada, aprumada, marca a diferença. Quando se olha para a banda, em palco ou em entrevistas, sabe-se que seguem uma linha visual clara e rigidamente definida. Classe no que vestem enquanto figuras públicas da banda, ou em palco, são donos e senhores de um repertório musical que tanto ora figura nas mais exclusivas pistas de dança por esse mundo fora, ora nas mais alternativas salas que possamos imaginar. A sua música, plena de ruído, e de melodia, fria por vezes, emotiva tantas outras, mas que nunca nos deixa indiferente, tornou-se universal. E, dos frios do norte da Europa, para todo o resto do mundo, soa uma chamada que muitos bem conhecem: tal como uma sereia, na mitologia arcaica, chamava os marinheiros para a perdição, também os Covenant fazem soar a sua chamada, chamando de volta os navios para o porto, uma metáfora para todas as almas que, distantes, díspares, perdidas, encontradas, regressam a uma casa – à sua casa que tão bem conhecem -, através da sua música.

Covenant The Blinding Dark Tour

Covenant The Blinding Dark Tour

E em Dezembro, em Dezembro descem os frios ventos nórdicos, uma vez mais até ao nosso Norte. E em Dezembro, soa novamente a chamada, e de todos os pontos cardeais, partem os navios em direcção a casa. Em Dezembro, o frio tornar-se-á uma torrente vulcânica que incendiará todas as almas que os presenciarem, no Hard Club. A 18 de Dezembro a The Blinding Dark Tour chega ao Porto.

“A hundred clocks are ticking, the line becomes a circle – spin the wheel of fortune, or learn to navigate”