The comedy of man starts like this…

Hum… não era este o tipo que escrevia canções de amor? Escrevia pois, das mais portentosas que ouvimos nos últimos tempos. As luzes da ribalta acolheram-no por isso, mas não só. A personalidade e o carisma de Josh Tillman – o homem por detrás da personagem –, tornaram-no numa espécie de coqueluche dos media musicais, em particular na internet. Igualmente amado e odiado, é difícil encontrar alguma entrevista em que o senhor Tillman não debata teorias existencialistas ou puxe de uma crítica ao que quer que seja que lhe esteja a fazer “comichão” no momento.

Falar é uma coisa; no entanto, fazer arte é outra. Até agora, a vertente mais acutilante de Tillman não tinha permeado por completo na obra de Father John. Para o colmatar, temos Pure Comedy. A faixa-título podia bem ser apelidada de peça central do álbum logo de início, caso essa predilecção não surgisse mais três ou quatro vezes ao longo do disco. De facto, se isolássemos qualquer uma das canções conseguiríamos mesmo assim obter uma boa perspetiva da miríade de assuntos contidos nestes setenta e cinco minutos de maravilha.

“Leaving LA”, canção nuclear descrita pelo autor como “10 verse chorus-less diatribe”, encapsula quase todos. Os mesmos meios de comunicação que o veneram são ridicularizados pelo sensacionalismo e desejo sedento de uma boa frase de capa que, no entanto, Tillman entrega sem falta. Ironia? Talvez não, quando a sua personalidade não o permite agir de outra forma. Para além disso, até as letras de Misty consistem em potencial citação seguida de potencial citação. Os sublimes arranjos orquestrais de Gavin Bryars – compositor e contrabaixista que trabalhou com figuras como Brian Eno ou Tom Waits -, colocam a faixa num patamar mais elevado, salvando-a de se tornar a banda sonora do aborrecimento dos fãs previsto por Josh, numa demonstração (ou tentativa, que o homem também não é assim tão omnipotente) de autoconsciência profunda.

And how’s this / For irony. Vivemos numa era em que somos absorvidos pelo narcisismo online, onde a nossa identidade, gostos e experiências são vendidas a empresas de publicidade, sem olhar a meios no caminho da violação absoluta da privacidade. Se há vinte anos os Radiohead usavam vozes sintetizadas de processadores de texto para profetizar o advento do domínio da tecnologia sobre as nossas vidas, em “The Memo” Father John Misty recorre a técnicas idênticas para desnudar a nossa disposição voluntária para a submissão à palidez fria dos dispositivos que utilizamos para amenizar a “dor” que é viver uma vida humana.

Father John Misty

Father John Misty por Grant James

Are you feeling depressed?
But your feedback’s important to us.

Felizmente, as mais valias deste disco não se resumem à palavra. Sempre ancorada na era dourada de Laurel Canyon e respetivos habitantes na viragem dos 60´s para os 70’s, a produção de Jonathan Wilson – excelente músico em nome próprio, para além de colaborador de Misty desde o primeiro álbum -, combina aqui o classicismo piano-country-folk-rock com a modernidade que a matéria pede. A alternância entre efeitos de fita e os arranjos atípicos de “Birdie” soam a uma utopia paralela à que Misty descreve na canção, com um momento realmente belo a acontecer quando todos os elementos atingem o clímax, a trinta segundos do final da canção. O detalhe da percussão recortada na muito sóbria “Two Wildly Different Perspectives” salta imediatamente à atenção, mas é o coro banhado em sintetizadores de “So I’m Growing Old on Magic Mountain” que se revela o momento mais alto em termos musicais. A paródia tipicamente à Father John não está esquecida – em “Total Entertainment Forever” encontramos “Taylor Swift” a rimar com “Oculus Rift”, protagonistas de mais uma sátira à cultura do entretenimento tecnológico que, como a maior das fatalidades, servirá em última instância para promover novas formas de pornografia.

Mais do que entretenimento, Pure Comedy é um tratado profundamente humano acerca do que afeta Josh Tillman agora, mas também o que o martirizou internamente ao longo da vida. Incompreendido e oprimido pelas doutrinas cristãs com que foi educado, o auto intitulado “Padre” já viu vários deuses a surgir na sua mente só para seguirem invariavelmente o mesmo destino – o colapso da crença. De forma recorrente, o nativo de Maryland relembra-nos que, afinal de contas, somos apenas grãos de areia num astro que desafiou as probabilidades do cosmos e tudo o resto não pode possivelmente ter origem em lugar algum que não a mente humana, cronicamente mal formada e constantemente à procura de algo no éter que justifique as nossas ações mal-intencionadas.

As referências descaradamente atuais impedem-nos de prever a forma como este disco resistirá ou não à passagem do tempo (será mesmo o derradeiro teste à arte?). No entanto, Father John Misty recorre a essas alusões com um objetivo maior – o de qualificar a condição humana perante os seus ouvintes numa tentativa já à porta do desespero para que não nos tornemos numa figura semelhante ao sujeito de “Ballad of The Dying Man”, após uma vida desperdiçada ao altar das redes sociais. Será Father John Misty o nosso Salvador? Provavelmente não. Mas não custa tentar. E, como nos canta no epílogo “In Twenty Years or So”:

What’s there to lose
For a ghost in a cheap rental suit
Clinging to a rock that is hurtling through space?

And what’s to regret
For a speck on a speck on a speck
Made more ridiculous the more serious he gets?

Com o tilintar final, somos acordados do sono: There’s nothing to fear.