Por estas alturas, já podemos ver os dias a esticarem-se. Às oito da noite ainda há luz e já se pode jantar ao sol. Quando cai a noite, se calhar ainda se leva esse casaco mas podemos já perfeitamente navegar só com uma t-shirt por baixo. Está a chegar aquele ponto do ano em que o ar começa a ficar mais leve, a atmosfera mais fresca e os dias mais soltos e cheios sem serem sufocantes. O fim de abril, adequadamente, acaba por augurar uma senda libertadora, perfumada e de temperatura mais morna. O Musicbox teve isto em conta, e como acertando na mouche organizou uma noite floral, pintada a belos e soalheiros tons laranja e amarelos, rasgados por entre uma aura esverdeada de ternura silvestre. A ler isto, pode parecer que nesta última noite de sexta houve enfeites e arranjos de flores, mas na verdade foram “só” as paletas de cores trazidas pela música dos Cristobal & The Sea e os Hot Air Balloon.

As duas propostas musicalmente radiantes – a primeira mais sazonalmente balnear e a outra delicadamente primaveril -, fizeram desta noite no Cais Sodré uma lufada de ar que até obteve propriedades curativas para aqueles que vinham de uma semana cansativa e saturada de trabalho (a vinda do sol nem sempre pressupõe a leveza da carga dos dias). Foi também uma noite íntima e familiar. A casa não estava especialmente composta, mas o número saudável de pessoas que apareceu não deixou de ser absolutamente exemplar na forma como recebeu os artistas, aplaudindo e aproveitando o espaço vago para poder dançar à vontade. Primeiro com a folk simpática e ternurenta dos Hot Air Balloon e logo depois com o tribalismo mediterrâneo e cartoonesco do colectivo multinacional que adequadamente tem o mesmo nome de um dos mais ousados e reconhecidos exploradores de toda a História pela autêntica mescla vibrante que apresentam.

Começamos então, a cinco minutos das 23h00, e entram em palco duas figuras e as partes nucleares (e antes, as únicas) deste conjunto chamado Hot Air Balloon. A banda – que originalmente era constituída pelos companheiros de vida, a vocalista Sarah Jane e o guitarrista Tiago -, prepara-se agora para lançar um novo longa-duração e o seu primeiro com banda que apenas viria a revelar-se depois de uma revisita aos primeiros tempos do projecto. Em primeira impressão, uma angelical voz e uma presença fotogénica de Sarah-Jane, irlandesa de nascença a estabelecer uma morna temperatura guiada pelos acessos ecoados da guitarra de Tiago. Já depois com a banda em palco, o número de intervenientes acresce aos seis (porque na verdade começamos com três, contando com pequena pessoa ainda a viver na barriga da vocalista) e este balão enche-se de ar.

Agora com violino, sintetizador, baixo e bateria, encontramos ao longo de uma hora uma banda multi-propósitos, que mantendo-se num registo relativamente uniforme, tem todo o gosto em brincar com diferentes dinâmicas e texturas, correndo daqui para ali (ou flutuando) através de uma voz embaladora e a diversidade técnica dos músicos. Relegando o seu set como uma pequena montanha russa em vez de optarem pela gradação, os Hot Air Balloon levaram a audiência pelo jazz, o folk e o rock mais aguerrido. A certo ponto, ecoava a música sombria de uma soul minimalista, a meio lume, reminiscente das caves escuras dos Portishead, para logo a seguir encontrarmos uma escala de dinâmicas e crescendo épicos feitos de portentosa percussão e abrasivos riffs de guitarra. Por vezes mais cândidos, outras vezes realmente exuberantes, o alcance musical dos Hot Air Balloon consegue certamente ser vasto.

Um novo momento a dois a meio do concerto volta a pôr em evidência a elegância suave, poderosa e não frágil da voz do conjunto, que juntamente com os seus movimentos airosos e pautados pelo palco incita ao próprio balanço do plateia que se manteve responsiva e risonha à música dos Hot Air Balloon. Apesar de diversificado em som, foi um set relativamente constante e meloso que cativou e se entranhou facilmente entre as paredes do clube lisboeta. Para uma banda que apesar de experiência internacional ainda dá os primeiros importantes passos quer na rotina ao vivo, quer na edição de um novo e mais ambicioso projecto, os Hot Air Balloon têm já uma aura de solidificação em termos de som e postura, demonstrando já uma significativa experiência. Simpática e muito morna, a visita deles a Lisboa foi um belo encontro cheio de graça. Daquelas que podem bater à porta a qualquer altura que vai ser fixe. A eles tudo de bom, quer para a música, quer para a recepção à nova vida que aí vem e que por agora já tem a sorte de poder acompanhar a mãe nesta aventura que é a música.

Como uma suave leva de vento, vai-se a primavera da banda para dar lugar às noites de verão e tardes na praia dos Cristobal & The Sea. Um português, um espanhol, uma francesa e um novo baterista (a estrear-se ao vivo com a banda esta noite) franco-americano são a fórmula para um projecto sem fronteiras que soa originalmente fresco, espiritual e colorido. Acabados de lançar o disco de estreia – gravado aqui em Portugal -, os Cristobal & The Sea fazem a rara proeza de conquistarem logo à primeira, tamanha é a dimensão da frescura e da boa onda que emanam, um efeito que perdurou ao longo de um concerto curto mas tão saboroso no Musicbox. Numa observação longe de inocente, provavelmente a última vez que este redactor se lembra de ter ouvido uma banda a despontar semelhantes sensações foi com uns espanhóis que também tinham especiais afinidades com o Reino Unido.

Há certos degraus que ligam os Cristobal com os muy populares em Portugal, Crystal Fighters. O gosto a sal, as cores vibrantes que vêm do namoro com a electrónica e a folk de ramos secos, e charnecas junto à praia ajudam a construir estas lindas imagens tão espirituais como agitadas que se encontram com os dois projectos. A um passo entre estes referidos e o absurdismo cartoon dos Animal Collective (presente nos arranjos vocais deliciosamente animalesco), os Cristobal & The Sea são, contudo, a sua própria praia e jogam o seu próprio jogo. Exóticos de aparência – com todos os membros a apresentarem-se de roupa colorida e floreada e de pé descalço -, e exóticos de som, transformaram o pequeno e levemente povoado Musicbox numa linda festarola cheia de dança, onde todos foram iguais, homens, mulheres, espectadores e até fotógrafos: incapaz de resistir ao charme desta música e de conter os pés que neste sítio já não se via uma plateia ter uma urgência tão genuína para dançar.

Abrindo com “Disquiet”, navegante balada latina, invocadora de sensações de desbravamento e aventura a alto mar, os Cristobal & The Sea viram-se instantaneamente convincentes. Delicados dedilhares pop apoiaram-se em belíssimos coros, ora mais latinos, ora mais africanos e numa flauta transversal a fazer o lugar de uma segunda guitarra ou teclado. É esta diversidade e jogo entre as latitudes geográficas que realça a diferença deste grupo. Vindos de um círculo maioritariamente europeu, quando os ouvimos tocar descobrimos realmente que não existem fronteiras nem rótulos. A presença da flauta não funciona só como um elemento diferenciador mas é realmente um poço de identidade para este som, que juntamente com os vocais e guitarras queimadas pelo sol, adquire contornos esotéricos e encantadores, quase como chamando espíritos divinos para colorir este concerto.

De notar também a atitude da banda que se comportou como se estivesse num estádio cheio, aproveitando para agradecer às pessoas que a eles se associaram e ajudaram a produzir o espectáculo, tratando de dar a quem veio uma noite cheia de música e dança, com a sua atitude descomprometida e familiar. Deixando assim a plateia à vontade, não tardou para que se começassem a ver autênticos passos de dança, que entre pulos, rodopios e modinhas a dois ilustraram universalmente o tipo de música que ali estava a acontecer e as vontades e atitudes inatas a cada um que esta é capaz de vir puxar para fora. É música para desprender. Em pano de fundo e como mote do concerto, estava Sugar Now, o disco que vai de encontro às influências tropicantes e latinas do grupo, mas também abre espaço a aventuras mais cosmopolitanas e urbanas. Assim, tanto surgiram os momentos mais tribalistas e desprendidos como os acessos mais modernos e rígidos de outras influências, como o leve kraut a acontecer em “Counting Smiles”.

Cantando as suas canções em várias línguas entre as quais o português, o apelo de uma banda como os Cristobal & The Sea acaba por ser poderosamente transversal, e não só por causa da língua. O tom descomprometido e o estado de espírito e postura quando tocam reflecte-se na aura laidback, que não é cozinhada mas sim genuína, fruto de uma atitude de abertura e harmonia: consegue-se realmente ver o papel que a natureza, a amizade e o bom tempo tiveram na feitura desta banda. As energias que emanam são contagiantes e conquistam uma das seculares missões da música: a arte da união e de fazer sorrir, e o sucesso dessa proeza não tem preço. A banda despede-se satisfeita com “Fish Eye”, linda alusão à festança espanhola, e são todos de sorrisos a terminar uma das noites mais risonhas do Musicbox até agora em 2016, muito também pela companhia valiosa dos Hot Air Balloon. Enquanto isto, continuar a ser assim tão divertido para eles todos, só poderá dar bom resultado e a única coisa que uma casa a meio gás esta noite nos ensinou, é que há urgência em espalhar a palavra destes grupos. É precioso haver assim música.

Cristobal & The Sea @ Musicbox

Hot Air Ballon @ Musicbox