Esta noite chega-se ao histórico e belíssimo edifício do Mercado Ferreira Borges com alguma dificuldade; as ruas do Porto estão repletas de capas negras e a festa dos universitários levou a que muitas ruas do nosso percurso até ao Hard Club fossem cortadas ao trânsito. Felizmente a organização foi sensível ao facto e atrasou por 30 minutos o começo do espectáculo. Parabéns também à MIMO pelo esforço continuado em trazer a Portugal bandas menos conhecidas mas muito caras aos amantes do indie e, pelo número de presentes no Hard Club, percebe-se logo à partida que foi aposta ganha.

Os Spy On Mars, portuenses a jogar em casa, sobem ao palco cheios de boa energia. No decorrer da actuação Luís Santos, vocalista, viria a revelar que este era o segundo concerto da banda, e mentalmente eu acrescentava: “Que se sigam muitos mais!” Quando se toca com o entusiasmo, divertimento e paixão destes rapazes, percebe-se que eles só não irão longe se se acomodarem. Com um som entre o punk rock e o two tone, era difícil ficar indiferente. Houve momentos de recuar no tempo e foi como uma reunião de Talking Heads, Pixies e Virgin Prunes numa só banda. Spy On Mars é sinónimo de festa.

Após em breve intervalo, seguiram-se os italianos Be Forest. Era tempo para acalmar e viajar até outras sonoridades mais etéreas. Bonitos em palco, o quarteto é formado por duas meninas e dois rapazes, e creio não errar se disser que ninguém ficou indiferente à presença de Constanza, vocalista e excelente baixista. Porém, quem agarra a banda é Nicola Lampredi e tudo gira à volta dele, como ficou bem perceptível com a energia diferente que se instalou na sala quando ele trocou a guitarra pelo bombo. Terão tempo para crescer e limar algumas arestas. Ainda assim, e hype à parte, foi uma hora bem passada com um som de guitarra que ora nos levava a pensar em Robert Smith, ora em Guthrie/Raymonde, e o synth a puxar a Xymox, embalando os corpos que ondulavam serenamente com música.

A pausa até os muito aguardados Crocodiles subirem a palco deixava-me a pensar que os Spy On Mars tinham mais de Califórnia e de boa irreverência do que a banda italiana e questionava-me até que ponto não teria feito mais sentido abrir a noite com o ambiente pop dreamy do som dos Be Forest. O crescendo da festa teria sido inegavelmente outro. Fica o apontamento e sobretudo a opinião acerca de bandas portuguesas não terem de modo algum que ser subservientes perante convidados de outros países. Reconheçamos o nosso valor.

E eis que o momento tão aguardado acontece, com Charles Rowell a entrar no palco e a deixar ligada ao pedal uma guitarra em forma de preparação e chamamento aos presentes que tinham ido até lá fora refrescar do ambiente de calor que se fazia sentir na sala. Em poucos segundos a sala estava novamente composta. Distraída como sou, não me tinha apercebido que os Crocodiles se apresentariam como dupla, apesar de estar bem claro no poster da digressão e também na divulgação do evento por parte da MIMO.

Meia-noite abençoada! Os rapazes de San Diego, Califórnia são fantásticos. Abrem com o tema  “Neon Jesus”  e passeiam-se cheios de atitude e muito  noise  por trabalhos editados até à data. O já velhinho hino punk  “Jet Boy Jet Girl”  põe toda a gente a dançar.  Brandon  queixa-se de alguns problemas com o ajuste do volume do som. Convenhamos que atuar com caixa de ritmo por entre duas guitarras desbragadas de distorção e efeitos não é a situação ideal, mas resolveu-se. Seguem-se  “Stoned To Death” e   “Teardrop Guitar”  com muita gente do público a acompanhar o vocalista a uma só voz. “Hollow, Hollow Eyes” acalma-nos o ritmo por uns instantes, para logo se explodir em dança com “Marquis de Sade”.  Na senda de uns The Jesus & The Mary Chain, os rapazes não são muito faladores e, para além de uns “obrigado!”, os espaços entre canções são ocupados com o som das guitarras ligadas, criando uma parede sonora até o próximo ritmo gravado nos trazer a canção que se segue. “I Wanna Kill” seria o último tema, não fossemos nós um público exigente e demonstrador do quanto se estava gostar. Os Crocodiles regressam a palco passado uns minutos e despedem-se do Porto com  “Mirrors” e, para meu espanto e alegria, com uma versão (a segunda da noite!) de “Ghost Rider” dos  Suicide. “WOW, didn’t see that coming, guys!!!” Se já me tinham completamente rendida, com aquela ganharam o meu coração para sempre.  Brandown e Charles mostraram-se inteligentes. Sendo apenas os dois em palco, podiam ter ido pelo lado mais fácil e durante uma hora terem tocado os hits da banda mais orelhudos. Foi um alinhamento consistente. Para quem os desconhecesse ficou uma ideia do que têm feito desde 2009, a espicaçar curiosidades para se ir descobrir o que faltou ouvir. Aguardemos por uma próxima vez em que os possamos ver com os restantes elementos; certamente a diferença será sentida. Mas posso dizer com segurança que o som que nos trouxeram valeu! O acender das luzes e o fim da noite assim o mostrou.