Se vos dissessem que o que irão ler não aconteceu em Portugal mas que precisa – e muito depressa –, de acontecer, acreditariam? Pois bem, desta vez, e em forma de apresentação, vindos do outro lado da Europa, estes são os The Werg e os Steps To Synapse. Duas bandas que se apresentaram no Sábado passado no Genialistide Klubi – ou Gen Club –, em Tartu, na Estónia. De lá, ouviu-se a apresentação do homónimo álbum de estreia dos The Werg, com uns refrescantes Steps To Synapse a abrir.

Um espaço tão conhecido por estas terras, lembra uma versão maior de uns Maus Hábitos. Sala grande, paredes escuras e feitas de madeira, onde ainda se pode ouvir algum ranger enquanto se caminha. Enquanto lá em baixo uns convivem no maior ponto de encontro de culturas de Tartu, no restaurante-bar-lounge chamado Möku na parte de cima começam-se a agrupar os primeiros grupos de pessoas no Gen Club. O mesmo edifício é partilhado por ambos espaços, numa homogeneização de estilos quase total, numa mistura entre uma rave dos anos 90 e espaço DIY escandinavo.

Ainda nem com meia casa, os Steps To Synapse abrem as hostilidades. Esta jovem banda vinda de Pärnu mostrou que a cena alternativa daquela que é a terceira maior cidade da Estónia, está a crescer. De lá trazem das coisas mais refrescantes e dos concertos mais elétricos que se podem imaginar. Com apenas um EP editado em 2015 – Desires EP –, mostraram como evoluíram desde então. A “cósmica banda de indie-pop”, como se descrevem, mostrou novas canções que prometem levá-los a um novo patamar.

A abrir, “Upshot” e “Leave Me Be” fizeram mostrar desde cedo de que fibra estes cinco jovens são feitos. Duas vozes eloquentemente fundidas, as de Lisann Aljaste e Ivo Leesar, as guitarras dançantes e exímias tanto de Ivo como de Siim Siimer, um baixo inquieto, incansável e inspirador de Karl Birnbaum e, lá atrás, Johannes Eriste a marcar o ritmo electrizante da banda. Com estes avanços iniciais, era fácil ver o ar de satisfação e diversão do público. A vontade de sorrir e dançar não faltou.

A recuperar do EP, “Colours” surgiu e com ela o seu lado mais soul com a voz suave de Lisann a acalentar os ouvidos. A versão quase hipnotizante desta música leva-nos para todo um conjunto de sensações. Serviu na perfeição como um “Painkiller”, apresentada por Birnbaum e que, tal como o nome nos leva a crer, fez-nos esquecer todas as dores e dançar com esta anestesia. Esta banda, e para contextualizar a sonoridade, lembra uma mistura do rock dançável dos Franz Ferdinand com Bombay Bicycle Club e Foxygen. Tal como eles, não nos deixarão ficar quietos e parados no mesmo sítio.

Para além de baixista, Birnbaum também canta, e mostrou o que sabe em “Be Here” e “New Limit”. Mas o melhor ficou guardado para o fim. Com ele trouxe os dois últimos singles que marcam por completo a evolução da sonoridade: a viciante e sempre fresca “Celebrate” e a soturna e dançante “Take Me Home”. Ambas mostram o que podia ser um verão em Pärnu: quente, festivo e cheio de aventuras. “Celebrate” é a clara canção para se ouvir de óculos de sol enquanto se conduz por uma estrada ao estilo californiano. E que entra numa nocturna “Take Me Home”. Sensual e que parece ser uma mistura entre AM dos Arctic Monkeys e um dedo gigante de Josh Homme. Créditos finais: concerto mais que positivo e bem disposto. Esta banda é para manter debaixo de olho.

Steps To Synapse @ Gen Club

Steps To Synapse @ Gen Club, Estónia

Mas a noite só fica completa com os The Werg. A banda de Saaremaa trouxe consigo o seu mais recente homónimo de estreia. E que estreia que eles tiveram. A casa enche e percebe-se desde logo o carinho que o público tem por eles e o quanto aguardavam por este concerto. Desde o primeiro pisar de palco, até ao adeus depois do concerto.

Algo simples para descrever o som deles é imaginarmos como seria viajar num tapete voador por entre a Estónia – ou pelos países nórdicos –, e ouvirmos o que estes ambientes nos transmitem. Um misto de sensações durante o processo que leva a finais épicos. Viagem láctea, esta. Para eles, não existem bandas do género como referência, apenas tocam “o que lhes surge e querem” até chegarem a um resultado final. Mas contextualizem-se por entre uns Mogwai e uns Explosions In The Sky.

Apresentaram o disco na íntegra e pela ordem do mesmo – apenas deixando “Vend” para o fim. A abrir “Grew EHT” e “Beanie Trap” e, logo desde o primeiro acorde de Sander Sepp, que o público reagiu com um maior entusiasmo. A partir daqui foi só viajar. Leves melodias, texturas sonoras sem levar a extremos de walls of sound, e secção rítmica em loop a levar o público a rodopiar com o que ouve.

Nas primeiras palavras ditas por entre músicas, Indrek Viires agradece a presença do público e apresenta Sander, Jüri Põld na guitarra e teclas e Lauri Põld, o irrepreensível baterista. Segue-se “Illusion” e “Ragnotti”, o primeiro single do disco que mostrou que o público já conhecia esta tão bela canção. O hipnotizante espetáculo dos The Werg reflete-se também no visual. As projecções que os acompanham levam a atravessar camadas e camadas de sons, mundos e histórias que eles mesmos criam.

“Travesser”, “Nobody” e a épica “Taiko” + “Taiko Epilogue” concluíram a primeira parte da viagem. Nesta última, ouve-se mesmo uma montanha russa de sensações. Constantes crescimentos e tensões enormes, que serviram de preliminares até ao clímax final que levou ao êxtase do público. O epílogo são os “restos” de toda a adrenalina ouvida durante o concerto.

Sob um mar de palmas e de pedidos de encore, a banda regressa ao palco e oferece “Vend”, o último single do disco que mostrou o que já havia confirmado: um misto de intensidade, reflexões e liberdade sonora que, mais do que tudo, mostra que os The Werg são uma banda a ter em conta e de trazer ao nosso país. Estes são os sons nórdicos no seu estado natural.

O disco pode ser ouvido no Bandcamp da banda, tal como os Steps To Synapse podem ser ouvidos no seu Soundcloud.

The Werg @ Gen Club, Estonia

The Werg @ Gen Club, Estónia