Quando, em 2013, Nadine Shah lançou o inesquecível Love Your Dum and Mad, o panorama musical foi assombrado pela textura profunda com que a sua voz envolve cada faixa do álbum. Uma orgânica vocal desenvolvida como cantora de jazz e r&b e tendo como Nina Simone uma excelsa referência para imprimir um tom carregado de significado e personalidade ao que a ressonância de um som a passar pelas cordas vocais pode fazer ao contar histórias em forma de canção. Love Your Dum and Mad é um registo de uma complexidade colossal, marcado que é pelo estigma social das doenças mentais e da sua invisibilidade e complacência aos olhos de uma sociedade que finge ignorar. Um complicado e doloroso navegar pelos escombros emocionais que Shah atira, ora gritando de modo raivoso, ora quase com um choro engolido a custo e estrangulado pela garganta; uma atmosfera assombrada de emoções no assento de uma montanha russa impossíveis de controlar porque doem no mais profundo do ser.

Começando pelo poderoso “Aching Bones” – tema também presente no EP de estreia de Shah editado em 2012 com o mesmo título -, com o martelar insano do piano e o bater do baixo a fazer lembrar um coração desgovernado em modo abrasivo, essa pulsação distorcida, acompanhada pelo toque bruto e incessante do piano, define-se a estrutura do esqueleto das personagens caídas em desgraça e ansiando por vingança, sendo “The Devil” e “Runaway” as composições que melhor retratam o roçar da demência e a raiva latente de alguém que atingiu o seu limite. Este é um disco que nos projecta para a mais pura melancolia, que quase nos afoga no tom desesperado de algumas das suas canções mas que possui um magnetismo na sua quase simplicidade musical que torna ineficaz qualquer tentativa de não o rodar repetidas vezes.

Fast Food surge em 2015 e revela uma maturidade e uma maior experiência musical. Imbuído da mesma brutal honestidade e nódoas negras emocionais mas com um corte cirúrgico na espessura do som que ganhou uma atitude sonora próxima de Nick Cave e de PJ Harvey, Shah fala de amor em Fast Food. Do amor fugaz, da gratificação imediata, de um mundo repleto de relações falhadas e amores complicados dissecados nas suas próprias palavras quando afirmou que o álbum “is the sudden realisation that you never gonna be anybody’s first love ever again”.

Um memorial musical do romance Amor Líquido de Zygmunt Bauman é o que estranhamente nos soa. Os primeiros singles do álbum – “Fool” e “Stealing Cars” -, mostram uma nova faceta a nível sonoro, deixando de lado a predominância romântica do piano e introduzindo um som mais denso com o uso da bateria, acompanhada pelos riffs violentos mas controlados da guitarra elétrica, do toque de dark folk impulsionado pelo baixo a contrabalançarem a potência hipnótica da sua voz. Uma ode à beleza imperfeita do romance em que, apesar de nos sentirmos ainda presos no labirinto por onde nos leva cada música, conseguimos ver o néon da saída de emergência.

Holiday Destinations, o terceiro longa-duração de Nadine Shah, chegou-nos em agosto e é um disco em que a influência multicultural das suas origens paquistanesa e inglesa se cruzam na incapacidade dos tempos modernos de aprender com os erros do passado. Nadine Shah lança-se de cabeça nas grandes questões globais e fala de política, terrorismo, racismo, do Brexit e da falta de pudor com que o Mundo não reage ao cataclismo da situação dos refugiados. Em “Out Of The Way” por exemplo, o single de avanço para o disco, ouvimos o seguinte verso:

You say out the way out the way out
Where would you have them go

A batida militar da bateria e o rude e aguçado saxofone de Pete Wareham enlaçam-se na voz tensa e crua e enfatizam as imagens do vídeo que acompanha a música. Uma recriação dos julgamentos de Salem onde a incompreensão movida por estereótipos originou uma perseguição de justiça cega. “Yes Men”, o segundo single do disco a ver a luz do dia, é um grito violento a roçar o post-punk com uma melancolia e tristeza vocal de riffs de guitarra em background; uma canção que gira à volta do poder dos líderes políticos e como estes corrompem a verdade, manipulando e enganando a opinião pública a seu bel prazer. Nas palavras de Shah,

Yes Men are the people that sell the lies and convince us that their enemy is our enemy.

“Holiday Destination”, o derradeiro single e aquele que deu o nome ao álbum, servia de base para uma maior experimentação musical, utilizando uma palete instrumental com ritmos funk, elementos de jazz e uma batida eletrónica pulsante. Tudo muito bem unido pelo equilíbrio embriagado da sua voz.

Mais uma vez, a capacidade em apontar uma faca à garganta das emoções e das questões incómodas e a mestria do poder vocal de Nadine Shah aliam-se às aparentemente caóticas influências rítmicas díspares e alucinantes que neste terceiro registo se encontram mais presentes, reunindo-se de forma harmoniosa e equilibrada. Holiday Destinations saiu dia 25 de agosto, pela 1965 Records e é o terceiro longa-duração da britânica.