O sexismo do género musical a que a indústria tende a entalar as bandas feitas por um rapaz e uma rapariga, foi tema de conversa entre a Tracker Magazine, Brian Oblivion e Madeleine Follin. Os norte-americanos abriram o palco principal do Super Bock Super Rock no dia 18 de Julho e trouxeram o seu Static para o Meco. Numa geração habituada a conviver com a possibilidade infinita do sucesso ao virar da esquina, as decepções e desilusões são uma constante; em Static, os Cults falam-nos dessa utopia.

Vocês atingiram o sucesso com Go Outside, mas este novo trabalho, Static, percorre espectros muito diferentes. Foi a vossa forma de romper com a pop ou criar a vossa própria pop?

Com este trabalho tentámos explorar o outro lado da mesma moeda, na música e na lírica. Por um lado, acho que temos a mesma vibe e as mesmas influências, mas gostávamos de fazer algo dissonante, arriscar mais dentro do mesmo estilo. Nós fazemos uma piada acerca disto: vamos percorrendo as décadas. O primeiro trabalho foi baseado nos finais dos anos 50, este percorre o final dos anos 60 e, Deus nos ajude quando chegarmos ao final dos anos 80!

Static é muito mais profundo e atmosférico. Como foi o processo de gravação?

O primeiro álbum, e eu adoro-o por isso, foi uma explosão de energia. Nunca tínhamos feito nada antes e esse álbum foi feito num portátil barato no nosso apartamento. Neste álbum queríamos uma sonoridade acústica, de músicos. Porque, durante este tempo, aprendemos muito sobre o funcionamento de uma banda e como ser músico verdadeiramente. Para nós foi muito importante perceber como se grava uma bateria, como se grava um baixo; todo esse conhecimento foi uma experiência incrível. Todo o processo foi drasticamente diferente do processo do primeiro trabalho.

Brian, disseste numa entrevista que a nossa geração pensa que nasceu para serem estrelas e que a vida está à nossa espera e, no entanto, isso não está a acontecer. Estamos programados para pensar que tudo é possível?

Tudo é possível. Eu acabei de ler o novo livro de Dave Eggers que explora o tema que muitos dos conflitos mundiais são desencadeados por jovens desiludidos.

Frustrados.

Sim, frutrados. Sentem que não lhes foram ensinados os passos para o sucesso e que as portas se fecharam para eles. Muito por causa deste complexo que as pessoas criaram de que não estão a abrir as suas próprias portas. Isto é algo com que nos deparamos diariamente em Nova Iorque e nas nossas vidas, de que é este o tipo de ser humano mais perigoso: uma pessoa desiludida.

Nas entrevistas que li sobre o último álbum vocês evitam dizer ao certo o que Static significa. Na faixa “So Far” a letra diz “how can you sleep at night, your static is so far away from me”. Isto é sobre o amor ou sobre a indústria?

Acho que não tem a ver com nenhuma das duas. É sobre a capacidade de te entregares a alguma coisa e não o conseguires fazer. Conseguires bloquear tudo à volta e ficares sozinho. É algo que estamos os dois, constantemente a tentar fazer. Na era da internet, não tens de te confrontar com tudo o que se passa à tua volta que não está bem.

Porque é que o álbum termina com “No Hope”?

Não sei. Não sei mesmo.

A letra é brutalmente depressiva.

Acaba sem esperança para a pessoa má que há em ti. Na letra dizemos “for the wicked and kind”, acaba por ser para os dois. Mas, no final, é sobre purificação e não perda de esperança. É um renascimento positivo.

Como foi trabalhar com Shane Stoneback outra vez e agora com Ben Allen?

Passámos os dias com essas pessoas incríveis, com Sleigh Bells que também trabalham com o Shane. E o Shane é o nosso melhor amigo.

Como é que vocês lidam com o facto de serem comparados, constantemente, com os Sleigh Bells?

Bom, é o mesmo produtor.

Musicalmente não temos nada em comum. A comparação deve-se ao facto de serem duos e é sexista, digo-o abertamente. As pessoas dizem “Ah é um duo”, porque é um rapaz e uma rapariga, mas porquê? E se fosse um rapaz e outro rapaz, seria diferente? E, nos nossos dois álbuns, é uma rapariga que canta o tempo todo, eu canto muito pouco. Não há um equilíbrio de homem e mulher. Fico frustrado com essas comparações. Não acho justo a generalização que fazem de uma banda com um rapaz e uma rapariga ser um género musical. Uma das melhores coisas da indústria musical de hoje, é as mulheres terem uma palavra a dizer.

As mulheres terem uma palavra a dizer? Só agora? Madeline, concordas?

Bom, é ele que está a falar o tempo todo! Desde que começámos tem sido fantástico para mim. Tocar em todos estes festivais e ir em tour com todas estas raparigas, não foi algo que imaginei. Tours como a de Courtney Love e Kim Gordon, ou talvez até Kim Deal, não consigo imaginar nada melhor.

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