Cymbals - The Age Of Fracture
80%Overall Score

Cymbals é música melancólica, é autocarro de turismo sem tejadilho que cruza a cidade atravessando a sua história. The Age Of Fracture parece trabalho final da disciplina de História da Música, é produto bom mas não entusiasmante. É produto bem manipulado e misturado, tendo como base samplers, o que o torna peculiar, e isso pode ser uma vantagem para o futuro. “Like An Animal” parece ser o hit perfeito deste álbum, é uma música com atitude e que puxa para a dança, usando rótulos. Seria The xx mexido e muito mais dançável, uma música impulsiva e que de certa forma nos puxa para a pista de dança, não tanto para dançar com outras pessoas, mas para mexermos o corpo de acordo com a letra e a batida, como se a pista de dança fosse uma colectividade que se une para ouvir o mesmo e se mexe peculiarmente porque cada indivíduo se mexe de maneira diferente, pois é também a música mais longa, aquela música que calha bem se passar mesmo a meio da noite (quando já não estamos totalmente frescos, mas também quando ainda não estamos a léguas da realidade.)

Cymbals em The Age Of Fracture usa voz, guitarra e samplers, usa muita literatura e turismo aos pensamentos gerados pela melancolia. Embora tudo comece em francês com “Winter Of 98” (uma batida forte que embala o ouvinte), o resto é cantado em inglês e entre “The Natural World” até “Call Me” (a instrumental), The Age Of Fracture reorganiza muitas das referências musicais ao longo da história recente da música, usando sintetizadores (que nos faz lembrar os “casio”), coros com lead vocals lembrando The Stone Roses, ambientes sonoros como Duran Duran e por vezes o bramir de Peter Gabriel, com uma fatia de Arctic Monkeys, New Order (guitarra em “Erosion”), até que a dada altura parece que estamos a assistir/ouvir a uma nova vaga da pop britânica.

Cymbals tem Jack Cleverly (cantor e guitarrista) como mentor desta ideia de pegar em momentos literários de certos livros e transformá-los em canções. O nome do álbum vem precisamente de um livro de Daniel T. Rodgers que fala da fragmentação de ideias no fim do século passado e tendo por consequência a incerteza do espírito colectivo das sociedades. Pelo que foi dito por estas linhas fora, até este momento exacto em que se lê esta palavra, a ideia seguinte que se pode acrescentar poderá muito bem ser esta: Cymbals em The Age Of Fracture tira polaroids e expõe-as nas nossas cabeças. É lembrete (sem ser depreciativo) com forma, conteúdo e dinâmica. “Empty Space” pode ser a música que descreve muito do que aqui está escrito. The Age Of Fracture é um bom serviço prestado à literatura (talvez numa ideia de tributo), misturada com o uso perfeito das ferramentas pretendidas e ao dispor. É um álbum pensado e trabalhado e talvez tenha sido estudado para ser assim. “This City”, a nona canção deste álbum, parece ser a música mais romântica e a que pode puxar mais pelo sentimento. Em “The End”, o francês volta a entrar em cena, mas o inglês é que canta a música, pois “The End” fala do fim da noite em que se dançou muito e de repente as luzes se acendem e se vê realmente as caras que nos rodeiam e é tempo de tomar decisões.

Mas este trabalho apresenta um problema, se é que se pode chamar de problema. Por vezes a voz fica em tão grande sintonia com o instrumental que não se percebe o que é dito/cantado. Por outro lado, “Call Me” pode muito bem ser o resumo perfeito deste álbum, o cartão de visita que é apresentado no final, o que não deixa de ser um apontamento de humor, pois podia muito bem passar em rodapé o contacto de Cymbals.