Da escuridão à explosão. Do nada ao tudo e a tudo que une os pontos comidos pelo tempo que traçam os contornos de um processo de crescimento de uma canção e a tudo que preenche os espaços em branco de mim, de ti, da vida, de fantasias e ilusões.

“My Favourite Faded Fantasy” abre a noite. Podias ter sido, podias ser, com certeza que és, de certeza que alguém vai fazer a tua vez. E a escuridão do Coliseu dos Recreios faz a vez, pela primeira vez, de um pequeno quarto, de uma pequena e podre e manca mesa de um bar onde Damien nos contará histórias. As suas, as minhas. Quando conheces estas histórias todas na primeira pessoa, as histórias são mais que meros retratos. São a exibição em tela grande de ti. Da escuridão à explosão, como sempre tudo é, como sempre tudo foi. Um palco absolutamente escurecido, um parco e flutuante e praticamente invisível esgar de luz que vai crescendo até ao Big Bang final de “My Favourite Faded Fantasy”, a personificação perfeita da galáxia espiral sofrida de Rice. Quem vinha de isqueiro em punho já percebeu que hoje não se celebra o romance. É a falta dele e tudo que gira em seu redor.

Confessa-se a primeira lágrima da noite à segunda canção. “9 Crimes” traz uma arma na mão. O silêncio arrasador numa sala, o silêncio avassalador no interior de ti. Frágil e taciturno. Isto é completamente o sítio errado para estar a pensar em ti. O filme prossegue projectado em quase nada em palco, o filme prossegue projectado em ti, e a tua pele, a tela. Não há desculpas para crimes destes. Todos os crimes de guerra são crimes de silêncio e já lá dizia a canção, love is a battlefield. A traição é um dos mais tristes crimes de guerra. Lá ao fundo da caixa das recordações vamos buscar a voz de Lisa Hannigan. Tão bonito, tão simplesmente bonito. “Delicate” avança e não engana nem trai. É delicado como o é em disco, tão folk de começo de dia como sempre o foi. Suave e plácido de tal maneira que quase disfarça mais uma história de descrença. Se não significa nada para ti porque cantas para mim assim? Para partires depois e deixares mais uma canção? É assim que nascem as canções.

“I Remember” e “The Greatest Bastard” sucedem e prosseguem. Um dos momentos mais emocionalmente ferozes da noite está a começar. A capacidade de se abrir em frente a milhares que Damien carrega em si é quase assustadora. Uma narrativa de dor tão facilmente perceptível por todo e qualquer um. É aí que reside o segredo do sucesso de Rice. As palavras são tão de todos, são tão os relatos fiéis e detalhados de todas as vidas. Da escuridão à explosão e novamente para a escuridão, passando aqui e ali por momentos de floreada luz. Dura pouco a luz nas histórias de amor que ficam para a história. Depois da tempestade, uma espécie de acalmia. A esperança bonita de “Amie” empresta um pouco de oxigénio. São os campos do tempo, os ecos de uma amiga de sempre, quase infantil tão sincera e tão bonita. Anda sentar-te aqui comigo e diz-me que ainda há esperança. E ele vem. E senta-se.

Damien Rice senta-se depois de ligar as máquinas e a sua guitarra como uma assombração paira por todo o lado. Não há esperança. Ele sentado. Um cigarro iluminado por um pequeno candeeiro. Damien bebe algo por entre as palavras de “Cheers Darlin’” e bafos no cigarro. Sentado na sua pequena sala de estar cheia de instrumentos, a solidão é dolorosa. Teatral sim, mas tão verdadeiro. Encenado sim, mas a representação exacta de tantas noites. Quem nunca se viu neste cenário?! Damien é cabaret negro, é Tom Waits reeinventado, é bêbado e barroco, é o lado triste e só da criação. Cheira a whiskey irlandês e fumo de cigarro na roupa da alma toda. Confessa-se a segunda lágrima da noite.

Damien sabe que estas noites podem ser violentas e pesadas e algures entre canções vai criando momentos de descompressão. Explicações divertidas para canções febris. E foi numa destas que Bernardo, um rapaz comprido de rabo de cavalo comprido acaba em palco. Boca bate boca e Damien convida-o para cantar com ele. Ele escolheu, ele cantou. “Colour Me In”. Um dueto inesperado como inesperadas as vozes se encaixarem tão bem ao ponto de Damien acabar a canção a afirmar que eles nunca se tinham conhecido na vida. Mais uma vez… bonito, tão simplesmente bonito. “Long, Long Way”, a faixa que encerra o disco de 2014 que ainda se celebra esta noite, continua a toada leve e menos densa. É um longo caminho sim, Damien, é um longo caminho esta sobrevivência emocional.

As luzes, que se apagam novamente, e Damien avança pelo negrume total. A escuridão deixa entender que a sua silhueta está mesmo junto a boca de palco. Damien começa, Damien desligou a guitarra. “Cannonball” é Damien sem mais nada. A canção ligada apenas a si mesma, amplificada apenas pelo silêncio de todos, por um coro em surdina, por um arrepio inimaginável nesta sala imensa. Sem microfone, sem cabos, sem luz… o ser pelo ser. A vida é isto, obrigado, Mr. Rice, por nos ensinares a chorar baixinho. Obrigado, Mr. Damien, por também e tão bem pores em palavras e ensinares os medos que são ser um homem em tudo o que não se é. Os mesmos medos que são ser uma mulher em tudo o que não são. É o medo que nos faz perder. É o medo que nos faz perder uns aos outros. Mais um enorme instante que passou lentamente, quente e sem espaço para respirar. Damien salta de instrumento para instrumento. Grava e lança. Da guitarra ao clarinete, da viola aos sinos, da bateria de volta a guitarra. Um homem e uma sinfonia de tudo. Ele sai…

… e ele volta. E volta com GYÐA, senhora islandesa que tinha já estado em palco antes. Sobrou a tristeza de não a ter visto sozinha depois de ver o que ela fez com Rice. Ele volta, com GYÐA e com “I Don’t Want To Change You”. A rara beleza que um violoncelo oferece a um canção é algo que vai ser sempre surpreendente. Por mais vezes que ele esteja, por mais vezes que faça parte intrínseca de uma canção. A presença imponente e a suavidade tempestuosa emprestam sempre algo de divino a estes momentos. “The Blower’s Daughter” chega de mansinho. Menos poderosa ao vivo do que se espera – a sofrer do efeito de over-exposure, talvez -,  mas ainda assim um daqueles trabalhos de uma vida. Delicado, cínico, fonte de tantas lágrimas em tantos olhos, de efeitos estranhos na pele das meninas em público e de meninos em privado. Oferecido a uma banda-sonora, sendo ele mesmo um tema que se tornou banda-sonora de tanta gente. De ti, de mim, de tantos nós… e tanto de ti em mim que ficou. E assim é. É mesmo como disseste: “I can’t take my mind off of you, ‘Til I find somebody new!”

Da escuridão à explosão interna, da luz à contemplação. “Volcano” explora as últimas lágrimas que ainda habitam os sacos lacrimais de uma Lisboa já anoitecida pelas palavras de Rice. O violoncelo marca um ritmo, Damien permite finalmente as palmas mas pede as vozes em troca. Divide a canção em três, divide a sala em três. As palavras “volcanoes melt me down” numa parte da sala, “what I am to you” noutra e tudo sobreposto pela sua voz. A magia existe e é tão simples quanto isto. O encontro das vozes contra o desencontro da canção. Eu sou aquilo que tu não precisas, tu recebes o que não queres, eu sou o que não és, tu és aquilo que não podes ser. Bem-vindos ao planeta Humanidade!

E mais uma vez obrigado, homem suave de canções escuras, por cantares em público aquilo que choramos em privado. Acabou! Saímos e as ruas novamente nos levam a lado nenhum. Não existe um lar num mundo com tanto medo de sentir.

As imagens de Carlos Mendes sobre as canções de Damien Rice:

Damien Rice @ Coliseu dos Recreios