Se se lembram daquela noite em que chegámos à Estónia, lembrar-se-ão então do acaso que isso foi. Por esta altura, os The Werg encabeçavam a noite, e com eles traziam o seu homónimo de estreia, fresquíssimo deste ano de 2017.

Contextualizando, a banda é proveniente de uma das ilhas deste pequeno país do norte europeu. Saaremaa, mais concretamente de Kuressare e Vätta, pequenas regiões costeiras, adornadas por um ambiente de clara antiguidade, mas com paradisíacos espaços verdes à sua volta. Algo atípico para o que se possa pensar de uma região desta zona do globo. Porém, não descuremos do frio, dos ventos nórdicos, daquelas florestas cobertas de neve e de um céu cheio de estrelas e luzes que não nos deixa pensar outra coisa senão… que lugar mágico é este. Pois bem, regados deste visual imaginado, podemos prosseguir para o que se poderá ver e ouvir com este disco.

Os quatro amigos – Indrek Viires (baixo), Sander Sepp (guitarra), Lauri (bateria) e o seu irmão Jüri Põld (guitarra) –, apresentam-se sem se apresentar. Questionados sobre a direcção estilística da banda, a dificuldade de encontrar um posicionamento musical é notória. Apenas por não se sentirem à vontade de o fazer e de isso os poder eventualmente limitar. Para eles, o importante é tocar, trazer influências de todo lado mas, e principalmente, divertirem-se. As referências não são apenas musicais. O ambiente do país, os sons, as vivências, o mistério e o dia-a-dia de um habitante da Estónia; tudo isto é trazido, de alguma maneira, para a música que fazem. Por isso, ao ouvirem The Werg, poderão sentir-se a viajar por entre este misterioso país.

O disco reflecte tudo o que foi dito anteriormente e começa vertiginosamente com “Grew Eht”. Ao longo da obra perceber-se-á que há uma característica muito visual naquilo que se ouve. Nesta primeira, essa sensação é imediata. Sabe-se que a partir daqui nada será o mesmo e que já estamos noutro sítio – mesmo que a meio se sinta uma certa tensão. Também se percebe que este mesmo disco, por não ter uma componente lírica, permite -nos a impossibilidade de perceber a história retratada em cada música. Imaginem que em cada uma se entra num sítio diferente. “Beanie Trap” é já um “amanhecer” no que se ouve num novo lugar e “Vend” é o reflexo algo distorcido da anterior. Como se se colocasse “Beanie Trap” num lago e o resultado fosse o que fosse surgindo. “Vend” é também o segundo e último single do álbum.

The Werg @ Gen Club, Estonia

The Werg @ Gen Club, Estonia

Depois de um término tão intenso e com muitos riffs rock misturados, “Illusion” desvenda aquilo que o próprio nome indica: ilusão. Misteriosa q.b., leva-nos a questionar sobre o que se ainda poderá vir dentro da mesma canção. Diferentes crescendos, e a percepção das coisas muda-se sem que nos apercebamos delas. Dá mesmo para especular sobre que tipo de ilusão é feita aqui. E no meio de tanta, surgem luzes. Pequenas luzes em “Ragnotti”, o primeiro single do disco. Nostálgica, que provoca uma sensação de conforto, que nos faz sentir que aqui já estivemos e que estamos bem.

Brings the listener to the dream world, where a puzzle unfolds. Upon arriving at the chorus you get taken to the next level of the dream, where another puzzle awaits. We are going on this journey through time and space, but we where is not entirely sure. Do we need to even know?

Assim é introduzida “Traverser” – um tema que podia descrever o álbum todo –, num ambiente dream pop a puxar dos sintetizadores, tanto para criar uma camada de som, como para embelezar novas melodias. O mesmo acontece com “Nobody”. A Terra de Ninguém por onde caminhamos podia-nos levar, outra vez, por entre um sonho onde quando damos conta, pensamos que estamos sozinhos, enquanto olhamos à volta e recolhemos todos os sons que nos vêm à cabeça.

Se se resumisse o disco a uma canção, essa seria a genial “Taiko”, não ficando atrás a sua sucessora “Taiko Epilogue”. Todas as emoções que nos trespassaram ao longo deste caminho estão aqui concentradas. Há uma tensão natural, crescente a cada segundo, mesmo que nada se oiça: há sempre coisas novas a acontecer. Em jeito de brincadeira, “Taiko” recebe este nome por ter características japonesas, segundo Lauri. Mas fiquemo-nos pela Estónia. O encaminhamento épico é concluído no epílogo que se enquadra como se de um terramoto tivesse acontecido e aqui ficam apenas pequenas réplicas. Ou, como escrito no disco, um “eco de Taiko, por entre uma floresta densa”. Ecoa-nos, de facto. Simplesmente brilhante.

E é assim que ficamos: do frio da Estónia para o nosso país, vai um post-rock nórdico de distância. Um abraço quente em dias de neve, que nos leva a viajar sem sairmos do sítio. Estes são os The Werg. A ouvir e apoiar na sua página de Bandcamp.