A Erased Tapes deu-nos Ellis no passado dia 8 e consideramo-lo já uma obra-prima dos pés à cabeça. A banda-sonora para o projecto do artista francês JR, que conta com a maravilhosa colaboração de Woodkid, Nils Frahm e Robert DeNiro, chega-nos com “Winter Morning” e “Winter Morning II”, esta segunda com o monólogo do actor. Um delineamento magnífico e enorme, que inclui música, fotografia, cinema, acção social e instalação artística.

Para contextualizar, Ellis era a ilha que, no século XIX e no começo do século XX, servia de porta de entrada para os Estados Unidos da América sendo, para muitos milhões de pessoas, o primeiro contacto com a terra que esperavam lhes permitiria os sonhos e lhes daria uma vida em condições. A história de procura de melhores condições é antiga, mas vemos reminiscências dessa procura de esperança nos dias de agora, sobretudo com a chegada de tantos refugiados a países estrangeiros, procurando não só condições melhores e mais dignas, como também o mínimo para a sobrevivência, fugindo ao clima de guerra e insegurança que conhecem nas terras natais.

JR realiza assim uma curta-metragem, Ellis, como homenagem a esse símbolo da imigração para o país, situada em pleno porto de Nova Iorque, e como tributo à actual questão dos refugiados, chamando simultaneamente a atenção para o assunto, que precisará sempre de destaque. Com Robert DeNiro no papel do imigrante, acompanhamos essa diáspora com os receios e desejos desse personagem-tipo e damos conta da presença de todos os intervenientes que, verdadeiramente, transformaram a América como a conhecemos hoje, enquanto vamos seguindo essa misteriosa figura pelos corredores em ruínas do antigo complexo hospitalar, actualmente com a instalação de JR.

O projecto, para além de ser uma obra sublime de cinema e composição musical, com a voz marcante a guiar-nos os arrepios, assinala também outra particularidade. A receita do álbum tem fins solidários, remetendo para a Sea Watch, uma organização sem fins lucrativos, que se dedica à protecção e resgate de refugiados.

Curiosamente, na altura dos atentados em Bruxelas, e sem poder viajar de avião, Nils Frahm sentiu-se deprimido e pensou que a Europa que tinha conhecido era já uma miragem e um mito. Fechado em casa, sentou-se ao harmónio, um dos seus instrumentos de teclas, escutou a voz de Robert DeNiro e tocou o resto do dia. Desse momento criou “Winter Morning II”, o lado B da banda-sonora de Ellis. Não somos capazes de ficar indiferentes ao significado desta parceria a três corações e menos indiferentes ainda devemos ficar quando estabelecemos estas ligações intemporais entre várias realidades distintas. O universo humano é feito, precisamente, dessas mesclas profundas, e só assim deve ser.

Pela incontornável voz do actor, apercebemo-nos da carga política e emocional do vídeo. Não enfrentamos uma crise de refugiados, enfrentamos uma crise. E essa crise surge, precisamente, da incapacidade de existir compaixão ou amor ou simpatia nutrida uns pelos outros, sendo o medo uma constante. A arte, nas suas possibilidades quase infinitas, pode e deve influenciar esse combate ao medo. Este projecto luta por isso mesmo. Ninguém é de nenhum sítio exclusivo, o ser humano foi sempre nómada, a música recorda-nos a efemeridade dos sítios e das pessoas, também.

JR incorpora retratos de famílias a preto e branco, nas paredes desse edifício da ilha, que vão surgindo como espectros, como figuras que parecem irreais mas que, simultaneamente, nos podem ser tão particulares. São caras anónimas, casais e filhos de vários continentes, procurando conforto assegurado pelo american dream, crianças, mulheres, homens, cada um com a sua ambição. Alguns rostos estão também no chão e nos estilhaços do edifício.

DeNiro vai caminhando pelos corredores vazios, janelas com vidros partidos, e leva consigo uma mala, um casaco e o próprio corpo; as teclas melódicas soam e escorrem das paredes cheias de pó. Somos embalados e apercebemo-nos de como essa ilha, a par de tantos outros pedaços de terra pelo mundo inteiro, acolheu milhares de estrangeiros. A própria noção de estrangeiro é defeituosa, se avaliarmos bem o que realmente importa. A procura de paz não conhece fronteiras ou limites geopolíticos – ou não devia conhecer -, e esse não-lugar do filme é representativo de portas que se abrem para um cosmos supostamente incomensurável, causa de mitos vários: a América.

Woodkid, mestre da composição, que já colaboraou com vários artistas quer com melodias quer com letras para músicas ou ainda como artista plástico, pensou no harmónio como o instrumento mais capaz para esta missão por desejar o som de algo que aparentasse ser antigo, como se fosse um piano resgatado da ilha de Ellis, um som belo e cuidado vindo de ruínas e destroços. JR, reconhecido como o Bansky francês por se desconhecer a sua identidade e trabalhar com questões sociais polémicas, já havia colaborado com Woodkid. Desta vez, com árias de Nils Frahm e suas, e guião de Eric Roth, destapamos o passado a fim de melhor ver o futuro, sendo que não existe melhor altura que esta – ou ontem ou hoje, amanhã poderá ser tarde -, para escutarmos DeNiro e escutarmos, isso sim a qualquer hora, as notas tocadas por Frahm.

Em nome dos imigrantes e dos refugiados de todas as eras da existência humana, com a magia do seu harmónio assaz, e cordas que cortam a respiração conforme vão surgindo, o mini-álbum chegou em formato cd, vinil e digital, contendo um pequeno livro com 12 páginas. E teremos de reflectir não só nas majestosas composições, mas nas entrelinhas tão poderosas que este presente nos dá.