Observar microscopicamente os mais ínfimos detalhes da biologia terrestre pode esclarecer as fontes inspiracionais que muitos criadores usam na construção de entidades, monstros ou personagens fantásticas. Tal como observar minuciosamente os paralelos e as ligações energéticas e biológicas entre o Homem e todo o seu meio ambiente pode iluminar a forma como profunda e intrinsecamente estamos tão conectados ao espaço sideral como ao carvalho na floresta ou ao labirinto arquitectonicamente avançado de um formigueiro.

Björk envolveu-se neste intrincado mundo, e desde 2011 que se transformou tanto numa entidade digital de análise molecular, como numa celeste criatura humana de coração aberto e exposto à audição e sensibilidade dos humanóides. Entre as apps e as exposições multimédia que envolveram Biophilia de 2011 e a terapia emocional de Vulnicura de 2015 que revolve nos efeitos destrutivos/reconstrutivos do término da sua relação com o The Cremaster Matthew Barney – seu companheiro durante 13 anos -, existe toda uma correspondência e sequência quase laboratorial de análise. Elementos desde sempre presentes na obra da islandesa são levados a um grau microscópico. A natureza e as suas metáforas humanizadas e o seu exacto oposto sempre foram figuras constantes ao longo dos nove discos de originais da menina Guðmundsdóttir. Sem grande esforço, títulos como “Cocoon”, “Oceania”, “Cetacea”, “Aurora” ou “Vertebrae By Vertebrae” clarificam a tendência de Björk – como boa islandesa que é -, para não esquecer o equilíbrio entre todas as esferas do planeta e do cosmos, planetário ou interno.

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Mais uma vez, Björk volta a ser um pouco de Terra e um pouco de Humana no segundo vídeo que recai sobre “Notget”. Depois de abril passado ter lançado o vídeo em realidade virtual para o mesmo tema, a compositora regressa ao mesmo som para criar novamente um paralelo, o paralelo humanizado e naturalizado dos mesmos elementos que foram anteriormente digitalizados e animados por Warren Du Preez e Nick Thornton Jones. Recorrendo novamente a Du Preez e a Thornton Jones, Björk é agora uma larva em dois actos. Tal como a canção que se divide em duas partes – a fechada onde vive a dor, e a expansiva onde a ressurreição ou o desabrochar são soltos -, “Notget” subdivide-se também entre o escuro e interno e a explosividade cromática. Björk é uma espécie de larva de pérolas, tiaras e hastes escondida num ambiente bio-gótico que se metamorfoseia numa espécie de medusa néon.

A Creators Project falou com os realizadores para uma melhor compreensão do vídeo e dos conceitos envolventes.

The core of “notget,” which makes its debut in celebration of the finale of Björk Digital in LA, surrounds two masks, created by James Merry, that symbolize the video’s two halves. Thornton Jones recalls that Björk’s idea for the first part of the video being an atmosphere of “biological goth,” which resulted in the Icelandic artist wearing a black dress and mask, standing amidst a moving field of black organic matter.

It’s bruised, dark, ominous, and mysterious, and it’s a play on the future and the past with mineralistic elements. We made the decision to submerge it into almost what we almost call an inner earth or into a place that could house that decay and bruising.

O novo “Notget” junta-se assim ao anterior “Notget VR” e a “Lionsong”, “Stonemilker” e “Black Lake” no que toca às representações visuais de Vulnicura. Tal como tínhamos já revelado aquando do lançamento da primeira versão de “Notget”, Björk encontra-se já a preparar um novo disco.