Damon Albarn - Everyday Robots
90%Overall Score

“When the photographs you are taking now are taken down again and the heavy clouds that hide the sun have gone”Damon Albarn fará um disco tão íntimo que chegará até aos que achavam que Albarn era tudo o que fez até agora. Como diria Timothy Leary, em plena trip de ácido na sample presente no tema “Photographs (You Are Taking Now)” “this is a precious opportunity”. E é. É a derradeira. Para lá do Albarn, o eterno irrequieto, a quem a Música do Mundo Inteiro nunca será suficientemente grata, que recuperou uma ópera chinesa (Monkey: A Journey To The West), que compôs outra, de raiz, para uma Inglaterra mais bucólica (Dr. Dee), que reinventou o hip hop com os seus Gorillaz, que arejou a pop com os The Good, The Bad & The Queen, que trouxe de Kinshasa e do Mali o melhor de África, que formou os Rocket Juice & The Moon com o Flea e Tony Allen, que nos trouxe o incontornável terceiro disco de Bobby Womack The Bravest Man In The Universe, que teimou em prosseguir com os Blur, mesmo depois de Graham Coxon abandonar as gravações de Think Tank, para culminar com o magistral single “Under The Westway” que o público recebeu em apoteose uníssona numa actuação épica em Hyde Park em 2012, muito para lá desse Albarn, está este Damon. Também estão e Brian Eno e Natasha Khan dos Bat For Lashes.

Depois, estamos nós. Todos os que acham que é imperativo que este Gigante (ou Selfish Giant, como o conto infantil de Oscar Wilde, que dá título ao sexto tema de Everyday Robots, transcenda o culto de que é alvo (não importa a dimensão do mesmo) para algo muito maior. Todo o disco é uma declaração, ora ode, ora queixume, à tecnologia. Ou ao que ela nos levou. O rumo que ela, tecnologia, tomou e nós, Everyday Robots, seguimos cegamente. E há, claro, muito dos Outros Albarn todos neste. Como no tema de abertura do disco, homónimo, todos os Blur num refinamento tão melódico que redime todas as falhas que possam ter ocorrido no passado. “Hostiles” continua essa saga de redenção: são todas as grandes baladas, os coros épicos, o crescendo para a apoteose que acaba por ser sempre mais subtil do que imaginaríamos, é um suspiro de alívio, é mais que “Lonely Press Play”, “Mr. Tembo” ou os devaneios a meio da gravação como “Parakeet” ou “Seven High”. Já “The Selfish Giant”, com o seu “I had a dream: you were leaving/It’s hard to be a lover when the TV’s on and nothing is in your eyes”, é o hino por que esperamos sempre que Albarn diz “vou lançar um disco”, seja qual for a colaboração, banda ou ímpeto pessoal. “You And Me” podia ser Eno e Albarn. Mas são outra vez os coros. Dois temas num, uma viagem sem preço. “Hollow Ponds” é o amor que todos gostaríamos de ter e cuja escrita encomendaríamos ao Senhor, ou seja, a Albarn. “The History Of A Cheating Heart” é aquela parte em que respiramos fundo antes de dar lugar ao típico “single”, outra vez Brian Eno em “Heavy Seas Of Love”. Mas antes, percorremos, numa trip quase como a de Leary, um mundo inteiro que é Albarn. E esta, meus amigos, é uma viagem que não tem preço.