Dan Mangan + Blacksmith - Club Meds
60%Overall Score

Andava o pop/rock feliz e contente pelo trabalho de Dan Mangan, o primeiro EP na verdura dos 20 aninhos, dois anos depois o belíssimo Postcards And Daydreaming, quando a folk do disco Nice Nice Very Nice veio agitar tudo. Bom bom muito bom é, de facto, um belo título para um disco onde figuravam temas como “The Indie Queens Are Waiting” ou “Fair Verona”, num tempo em que os singer-songwriters, como se convencionou chamar a esta gente capaz das coisas mais marcantes, intimistas e impossíveis de datar, gozavam de um estatuto que só o despojamento de quem ouve permitiria. De volta aos básicos, numa tradução livre e simplista ou, se preferirem, que segue a mesma filosofia, os cantautores, que sempre existiram e nunca deixaram de fazer aquilo que melhor sabem, já eram então seguidos por uma horda de apreciadores que desistiram das recentes décadas em que as bandas tinham de ter a si associados concertos em salas gigantescas, à pinha de milhares, com luz, som e pirotecnia a condizer. Bastavam-nos letras bem escritas. Música recorrendo aos mais tradicionais formatos. Mas sem fórmulas rígidas nem receitas escritas pelos avós. Assente em raízes que ninguém se atreve a cortar. Respeitando uma quase genética.

O canadiano Dan Mangan não é ambicioso nem inventou a pólvora. É só trabalhador e gosta do que faz. Comprovam-no cinco discos desde 2005, humildes, mas consistentes, que percorrem um trilho bem delineado com uma ou outra bifurcação que leva à surpresa. Dan Mangan + Blacksmith não é, por assim dizer, uma mudança na estrutura da obra. A intenção desta nova denominação é apenas a forma do singer-songwriter Dan Mangan demonstrar que, neste sexto disco, a banda assume uma importância maior. É, de facto, maior. Há trompetes, violinos, muitas teclas e coros sobejos, magistrais, quase sempre providenciais. Blacksmith (ferreiro), como quem quer mostrar que estes elementos (Kenton Loewen, Gordon Grdina, John Walsh, JP Carter, Jesse Zubot e Tyson Nailor) levam a cabo uma arte que demorou muitos anos a dominar e agora pode operar uma enorme mudança na sonoridade do todo. É um facto. Mas também conta o exímio trabalho de Colin Stewart, numa produção a que nenhum dos outros discos teve direito.

Mais pesado, dir-se-á, à primeira audição. Mas não há imediatismo que não caia por terra logo no primeiro tema, “Offred”. É melódico, ponto. Naquela convencionalidade de clube nocturno dedicado a Live Acts (e que viram nascer tantos grandes nomes), o baixo é profundo e tudo orbita em seu redor, como nos velhos tempos, dirão os puristas. “Vessel” segue-se, e talvez tenha demasiada produção para quem tenciona tocá-la, posteriormente, ao vivo. É ambição pura. Mas também demonstra a coragem de Dan Mangan neste disco, provavelmente o mais intrépido. “Mouthpiece” cumpre a tradição das letras belíssimas. Talvez também funcionasse com menos agudos. “A Doll’s House / Pavlovia” é puramente contemplativa. Nem quando a bateria entra e a guitarra dá um ar do seu rock a sensação se esvai. Chegam a ser três, sobrepostas, num rendilhado singular escalando até ao cume. “Kitsch” é quase pueril, “XVI” é a americana de outros discos, “War Spoils” é um pântano do Louisiana (não esquecer que tudo isto é Made In Canada, o frio e civilizadíssimo Canadá) e “Forgetery” não permite outra coisa que não lembramo-nos durante muito tempo. O nono tema, que dá o nome ao disco, exige uma audição cuidada. A letra é tão bonita como os coros que a envolvem. “Rewind”, como nos velhos tempos, exige-se. “Pretty Good Joke” é ironia nas palavras, um baixo numa jam session do tal clube de que falávamos acima e muitos, muitos detalhes preciosos. “New Skies” encerra este Club Meds com violinos tocados com os dedos, um trompete a coroar e uma guitarra épica.

Fica-nos a ideia de que é fácil embrenharmos-nos nesta intrincada malha de detalhes que costuma caracterizar mais o indie que esta pop que não almeja a mais que isso mesmo. É só música muito bem pensada, desempenhada e produzida. Não é só isso que queremos num disco? Não sairão daqui novas correntes, géneros, um culto fervoroso. Mas de várias audições, atentas e de sorriso posto, Club Meds não se safa. Recorda-nos, essencialmente, lugares onde já fomos felizes. Alguns de nós, porém, poderão ter algumas reticências em lá voltar.