Depois do fim da banda feminina L.B.Page, Valerie Trebeljahr começou por tentar produzir música sozinha, mas rapidamente aceitou a ajuda de Markus Acher (The Notwist, Tied & Trickled Trio) que viria a ser crucial para o futuro dos Lali Puna., a mítica banda que agora regressa aos discos após um hiato de mais de sete anos. E foi crucial porque na, altura, Markus partilhava casa com Thomas Morr quando este último decidiu fundar a sua própria editora – a Morr Music -, que viria a ser a editora permanente do grupo. Oriundos de Weilheim in Oberbayern, na região da Bavaria, perto de Munique, o atual trio é liderado pela vocalista e teclista Valerie Trebeljahr e é composto ainda por Christian Heiß que trata das eletrónicas e pelo baterista Christoph Brandner.

A carreira dos Lali foi então iniciada em 1999, com o lançamento de Tridecoder, o segundo álbum de sempre editado pela Morr. Já contando com a inclusão do baterista Christoph Brandner (Tied & Trickled Trio) e do teclista Florian Zimmer (Iso 68, Fred Is Dead), o recém-formado quarteto aproveitou o boom da música eletrónica do final da década de 90 para fazer a sua entrada em cena. Apesar de terem os sons de carácter mais digital como peça-chave da sua composição, o grupo decidiu juntar-lhe sonoridades pop, colocando-os lado a lado como nomes como os dos Smoke City, Morcheeba ou Air com uma singular e muito particular ambiência doce apesar de gélida tipicamente germânica.

Tridecoder traz ainda a curiosidade de incluir várias músicas inspiradas na cultura portuguesa. Apesar de ter nascido na Coreia, Valerie Trebeljahr viveu dos oito aos dezoito anos em Lisboa e guardou essa experiência bem perto do seu coração. A influência de ter passado a sua adolescência em Lisboa, das suas saídas para o Frágil, Kremlin ou Três Pastorinhos no Bairro Alto deixou as suas marcas bastante profundas e orientou o seu futuro som para a eletrónica. Existem vestígios dessa marca portuguesa neste primeiro álbum, como pode ser visto nas músicas – que têm partes cantadas em português –  “Rapariga da Banheira”, “Toca Discos” ou “Superlotado”.

Este primeiro trabalho ajudou a que os Lali Puna ganhassem alguma notoriedade e, depois de uma evolução relativamente bem-sucedida no meio que incluiu digressões pela Europa e América do Norte, acabaram por lançar mais dois álbuns de longa-duração – Scare World Theory em 2001 e Faking The Books em 2004. No tempo que mediou esses dois registos, Florian Zimmer afastou-se do projeto para se focar inteiramente nos seus Iso 68 e foi substituído por Christian Heiss.

Por alturas de Faking The Books, os Lali Puna iam de vento em popa, recebendo elogios rasgados vindos desde de Andrew Weatherall (Two Lone Swordsmen) aos gigantes Radiohead. Então, no processo de construção do álbum, o som do grupo foi-se desviando do que até então tinha sido uma composição de eletrónica pura, com os vocais baixos, ritmos calmos repetidos ao ponto de se tornarem hipnotizantes, para passar a incluir guitarras aguerridas, mais instrumentos e a registar um aumento do volume dos amplificadores e, ao mesmo tempo, dar mais relevância à parte vocal de Valerie. Com isto, Trebeljahr imprimiu na música dos Lali Puna uma componente política mais forte, usando a oportunidade de se fazer ouvir na transmissão da sua visão do mundo e do sistema, tornando a sua desconfiança perante a ordem das coisas um dos aspectos principais a serem abordados no álbum. Faking The Books foi afirmativamente mais do que um álbum de experiências sonoras ou musicais: foi sobretudo um álbum de consciencialização e reflexão sobre o mundo tanto por parte de Valerie como do resto dos elementos com quem partilha a sua visão.

Depois deste álbum de experiências, a banda entrou num primeiro hiato, que seria quebrado em 2010 com o lançamento de Our Inventions. Este quarto opus representou um regresso às suas origens eletrónicas, afastando-se das guitarras que tinham sido incluídas no álbum anterior. Menos político, mas sempre atual, Our Inventions foi sobretudo uma observação do mundo, onde se encontraram sublinhadas como temáticas principais a modernidade, o progresso e a nossa obsessão societal pela tecnologia. Bastante peculiar nas suas sonoridades fortemente digitais, o álbum foi bem recebido pelos seguidores do género, mas não conseguiu ultrapassar essa subcultura. A este trabalho de longa-duração seguiu-se ainda o EP Silver Light, em 2012 sem, no entanto, despoletar muito interesse ou, pelo menos, não o suficiente manter o conjunto unido.

O mundo alterou-se significativamente depois de Our Inventions ter sido lançado. A própria banda também: Markus Acher decidiu abandonar o projeto, e Valerie tinha decidido voltar a focar-se na sua carreira de jornalista e na sua família. No entanto, depois de uma digressão realizada pela sua terra natal, na Coreia do Sul, a Valerie voltou a ficar com o “bicho” da música. Aos poucos e bem devagar, foi escrevendo e compondo novos trabalhos. Eventualmente cansada de trabalhar sozinha, Valerie acabou por chamar Christian Heiß para a ajudar nesta tarefa. A dupla ganhou rapidamente forma, e foi convocando uma série de outros músicos para participarem em colaborações que viriam a ser parte integrante deste novo álbum, com nomes como Keith Tenniswood (Radioactive Man, Two Lone Swordsmen), Jimmy Tamborello (Dntel), a harpista Mary Lattimore ou a artista experimental Midori Hirano (conhecida como MimiCof).

No total, o álbum demorou cerca de dois anos e um esforço partilhado por vários artistas para ser completado. Two Windows é, portanto, mais do que um simples álbum: é um símbolo de recomeço para os Lali Puna, sete anos depois do seu último trabalho de longa-duração.  A nível lírico, este é um disco mais orientado para as políticas individuais de cada um: não abdica da componente política, mas encontra-se mais virado para as visões internas de pensamento, da própria emancipação enquanto ser humano e demonstra um pragmatismo sobre diversos pontos de vista para um mesmo problema que não tinham sido revelados até agora. Talvez a maturidade seja a razão para a mudança de perspectivas, para a aceitação de pontos de visão diferentes. A política está presente no álbum, mas leva o ouvinte a questionar-se sobre as suas próprias políticas pessoais mais do que sobre o seu mundo envolvente. O foco deixou de ser uma pregação do abstrato para se virar para o que nos torna humanos, sobre a nossa própria visão do mundo e como isso é que o influencia em vez do contrário.

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“The Bucket” é o segundo tema retirado de Two Windows, depois de “Deep Dream” ter sido apresentado no início do passado mês de junho. O primeiro single deixou clara uma continuação dessa veia politizada , mas no caso deste segundo single – uma adaptação da música com o mesmo nome dos Kings Of Leon, que pode ser encontrado no segundo álbum da banda, Aha Shake Heartbreak – mais do que uma cover, “The Bucket” acaba por ser um reflexo desta nova filosofia dos Lali Puna: se a mesma música dos Kings of Leon for contada na perspetiva de uma mulher, o que muda? O que muda na personagem, o que muda na maneira de compreender a mensagem transmitida, o que muda nos sentimentos como ouvintes?

Ouvindo os dois primeiros temas nota-se que, além da evidente componente eletrónica, a banda virou-se também para o lo-fi, construindo sons que recordam uns Four Tet – se estes usassem BPMs mais baixas –, os Electrelane ou ainda os The Postal Service. Por seu lado, a banda cita Caribou, Ada ou os Mount Kimbie como influências na elaboração deste álbum.

Mais do que um álbum novo, transparece nesta nova sonoridade dos Lali Puna – sobretudo devido a esta ‘nova’ Valerie – a decisão de agora criar música sobretudo para eles próprios, e este é o verdadeiro caminho para produzir um trabalho de qualidade. Aguarda-se por mais de Two Windows, quinto trabalho de longa-duração da banda, a ser lançado no próximo dia 8 de setembro.

Lali Puna - Two Windows

Lali Puna – Two Windows