De maestro e de louco nem todos temos sequer um pouco. Há acessos fechados a determinados estados de evolução humana que não são acessíveis ao comum dos mortais e, não raras vezes, são viagem e destino final de um processo de coragem de exploração da mente e de estados de alma alterados através de veículos artificiais ou meditacionais. Para criaturas mitológicas, como Tricky, o caminho é espinhado e apinhado de aproximações a Deus e ao diabo. Está marcado nos rasgões da vida escondidos no rosto, está na forma como se esconde e ao mesmo tempo se mostra em pleno no refúgio dos palcos escurecidos que desde há muito são o seu melhor adereço em todos os concertos.

Adrian Thaws é homem de poucas palavras e de ainda menos luzes em palco. Se para um outro poeta da música inglesa há uma luz que nunca se apaga, para Tricky há apenas um passar pelas trevas do mundo por entre o maior número de sombras possível. Um não invalida o outro, um complementa o outro, um anavalhava de ambiguidade, política e desesperança os anos 80 e o outro… o outro é Tricky, personagem narcótica tipicamente anos 90, de sombras e desespero, com tanto de terrorista com uma causa, como de terror nocturno de suores quentes.

Em Lisboa, Tricky foi mais uma vez apenas ele mesmo… ou talvez não, o que confirma a primeira afirmação. Thaws enfrentou o passado no mais recente disco, UnUniform, olhando fixamente as origens alicerçadas em Maxinquaye e aceitando(-se?) – apesar de passar, esta noite, uma única vez por 1995, ao som de “Overcome” -, e transitou ao longo do concerto, da sua forma particularmente conturbada, por boa parte da obra, deixando de fora essencialmente a primeira década do novo milénio.

Uma tensão post-millennium? Talvez não, talvez as pazes não estejam assim tão bem feitas com o passado. Talvez Adrian também não queira dar menos do que os fiéis querem ouvir sem deixar para si mesmo intacta a integridade nada facilitista com que aborda os mais de 30 anos de carreira. E ali, no palco, cospe das sombras os pedaços de si e de som que não lhe rasgam ainda mais a vida que carrega no rosto, enquanto trabalha como um equilibrista sempre prestes a entregar-se à queda mas a conseguir, a todo o momento, fixar-se de pés firmes na linha que traça e conduz.

Tricky @ Lisboa Ao Vivo

De fora ficam completamente os anos entre 2002 e 2012 e ficam também de fora os hinos do passado. Não há “Black Steel”, não há “Ponderosa”, não há “Makes Me Wanna Die”, “Christiansands” ou “Trickykid” e nem sequer “Broken Bones”. Mas há “You Don’t Wanna” e “Overcome” e há a proximidade temporal a deixar mais marcas que o tempo distante com “My Palestine Girl”, “Sun Down”, “Parenthesis” ou a devastadora “Vent”, que escorreu de forma corrosiva de dentro da cover de “Doll Parts”, das Hole, apropriação corrente na actual tour do clássico da banda de Courtney Love – com quem partilhou uma década de decadência, brilhantismo e desalento -, para o eco de “Dark Days”, em que pela única vez há mais luz que breu.

O maestro é louco mas sabe o quão fácil é a linha ser apagada e o quão simples seria não saber em que lado está do real. No final – como em muitas outras vezes durante a noite -, Tricky canta com o microfone colado ao peito, sem intermediários entre o coração e as palavras. De outras vezes, dança uma dança nua sensual e violenta com a roupa e o corpo, canta com dois microfones ao mesmo tempo, enquanto se transforma em máquina a vapor de perfil ao longo do palco, evitando quase sempre os flocos escassos de iluminação.

Mãos ao alto em convulsões – sentir-se-á Tricky mais perto de Deus ou de ser ele próprio um nearly god? -, que se disfarçam tantas vezes de movimento de batuta sempre e sempre a conduzir os músicos que o acompanham. Dois músicos demasiado bons para estarem com Tricky e uma vocalista inconsequente, demasiada técnica com pouca emoção, com demasiados tempos e pouca revolta. A música do anjo negro de Bristol pede vísceras e secreções em detrimentos de pautas e diapasões, mas parece ser ele mesmo que entala as suas asas para impedir que o exorcismo se torne em possessão. Músicos mais reais tornariam a dor sempre mais real, mas mais vale dar um bom concerto que ter uma memorável e cortante memória a deixar mais um rasgo no rosto.

O inferno está sempre ao virar da esquina. Tricky sabe-o melhor que ninguém.

Fotogaleria completa de Tricky, pelo olhar de Carlos Mendes.

Tricky @ Lisboa Ao Vivo