Os Dead Combo têm vindo a afirmar-se cada vez mais como uma das grandes bandas portuguesas da actualidade. Prova disso, é o recente Globo de Ouro para Melhor Grupo. Com doze anos de carreira e seis álbuns, Tó Trips e Pedro Gonçalves merecem todo o mediatismo que têm vindo a receber com o passar dos últimos anos.

Passado quase um ano desde terem enchido o Coliseu dos Recreios, a dupla portuguesa volta a pisar um dos grandes palcos portugueses, nomeadamente o Grande Auditório do CCB, para apresentarem o seu novo espectáculo Dead Combo e as Cordas da Má Fama. Fazendo-se acompanhar por Carlos Tony Gomes no violoncelo, Bruno Silva na viola de arco e Denys Stetsenko no violino, o espectáculo vai “oferecer ao público uma viagem inédita pelos mais emblemáticos temas da sua discografia”, como é dito no comunicado de imprensa, mas as Cordas da Má Fama não foram os únicos convidados.

Em cima do palco, estão vinte e dois clientes num “restaurante”, distribuídos por oito mesas com panos de mesa e candeeiros. Enquanto o público ocupa as suas cadeiras, os clientes continuam pausadamente a sua refeição, seja num jantar de amigos ou num encontro a dois, com garçons a servirem vinho, pão ou azeitonas. Aliás, existe mesmo um bar a servir bebidas. No centro do palco, estão duas cadeiras rodeadas por guitarras e um contrabaixo, um pouco mais atrás, as três cadeiras pertencentes aos Cordas da Má Fama, juntamente com os respectivos instrumentos.

Numa sala a meio gás (haviam diversos camarotes e filas na primeira plateia desimpedidas de gente, por exemplo), às 21h15, o restaurante no palco recebe mais cinco clientes. Ao contrário do que seria de esperar, em vez de surgirem pelo palco, descem pelo auditório enquanto são acompanhados por um mar de palmas e pelas luzes a apagarem-se. Ao chegarem ao palco, dirigem-se ao bar para um copo de vinho (“À vossa!”, saúda Pedro) e finalmente se ocupam das duas cadeiras que os aguardam no centro do palco. Enquanto que os Cordas permanecem no bar, Pedro e Tó começam a conversa a quatro que todos querem ouvir: entre eles e as suas guitarras.

Abrindo o concerto com temas como “A Menina Dança e Assobio”, está garantido que esta noite o público será brindado com um best of (e quiçá, vinho) pela banda. Até serem acompanhados pelos Cordas, a dupla parece estar a protagonizar um jogo de ténis num Grand Slam: o palco passa a ser um court, as guitarras tornam-se em raquetes e a bolas são notas. Pedro e Tó trocam entre si o maior número de notas possível e quando o tema termina, o ponto vai sempre para o público. Eles divertem-se e nós ganhamos.

Finalmente acompanhados pelos seus três convidados, fica-se com a sensação que a junção entre as duas bandas não é um casamento totalmente feliz; no final de diversos temas, enquanto o público aplaude, as bandas trocam acenos facilmente perceptíveis de “esta não correu muito bem”. Algumas excepções são “Putos a Roubar Maçãs” e “Povo que Cais Descalço” (“Esta é a nossa primeira música com uma mensagem política. Representa a forma como os governantes deste país deixaram-nos sem sapatos e agora andamos por aí a cair” informa Pedro, numa das poucas vezes em que comunicaram com o público). À medida que o concerto decorre, as bandas percorrem os temas mais marcantes de todos os álbuns dos Dead Combo.

A meio do concerto, enquanto a dupla vai repousar para o bar, os Cordas da Má Fama ficam encarregues de prosseguir o concerto. O esforço que tiveram em adaptar os temas dos Dead Combo para os seus instrumentos era evidente e as duas músicas em que tocaram sozinhos, foram as mais aplaudidas até ao momento. Novamente acompanhados pelos Dead Combo, tocam uma versão ligeiramente diferente de “Cuba 1970” (“Embora não parecesse muito, isto foi uma música dos Dead Combo”, troça Pedro). Com o concerto a chegar ao fim, e depois de uma “Arraia muito aplaudida, Pedro Gonçalves avisa o público que vai ser “um pouco chato com os agradecimentos, mas tem que ser”, agradecendo aos Cordas da Má Fama pelo trabalho que tiveram em aprender o repertório dos Dead Combo, aos figurantes do restaurante e a todos aqueles que trabalham com a banda, antes de todos abandonarem o público numa ovação de pé.

Para o encore, os cinco convidados de luxo voltam ao restaurante onde só se encontra o barman. Enquanto os Cordas fazem uma pausa no bar, os Dead Combo voltam para as suas cadeiras e para a sua conversa. “Vamos tocar pela primeira ao vivo esta música que até hoje não tinha nome. Hoje, passou a chamar-se Fado a Pilhas” comenta Pedro, informando que ganhou esse nome numa rubrica feita na rádio TSF nesse mesmo dia. Por fim,  para terminar o concerto com chave de ouro e novamente acompanhados pelos Cordas, chega a tão esperada “Lisboa Mulata”. Apesar da junção entre as duas bandas não ter corrido bem em alguns temas, os Cordas não só deram uma nova vida a este tema como foi o melhor tema resultante desta colaboração, tendo mesmo desencadeado alguns pezinhos de dança a espectadores mais corajosos.  Nova ovação de pé que é retribuída com uma vénia e agradecimentos, tendo posto fim a um concerto a condizer com a sala: a meio gás.