Deerhoof - La Isla Bonita
70%Overall Score

Salsa e música latina combinam com uma banda noise pós-punk e pós-Nirvana? Combinam tão bem como o canto lírico e o Passos Coelho. Ou por outra, se entre uma sessão de karaoke e o Primeiro-Ministro a primeira leva a melhor – e isto não só não constitui um elogio a nenhum dos termos de comparação, como demonstra também o saco de lixo democrático em que a música se pode tornar – o efeito karaoke da cultura pop nos últimos anos também não passou despercebido aos Deerhoof, que decidiram assinalar os seus 20 anos com um álbum dedicado a Madonna e Janet Jackson.

La Isla Bonita evoca, pois, as canções de infância da vocalista nipónica Satomi Matsuzaki, num Japão onde os hits das estrelas pop americanas eram repetidos à exaustão. A banda reuniu-se para ouvir os originais da rainha da pop e considerou que as músicas ainda funcionavam, um pouco à semelhança das valsas austríacas antes de entrarem em decadência no regime fascista. Decidiram avançar para um disco que fizesse jus às grandes produções avant-garde da pop, a um certo glamour icónico, mas no final saiu tudo ao contrário. Um conjunto de canções de baixo orçamento, áspero, rude, o mais punk possível. Era para ser uma homenagem pré-apocalíptica. Tornou-se uma homenagem pós-apocalítptica. As gravações tiveram lugar no estúdio-cave do guitarrista Ed Rodriguez, juntando-se mais tarde as vozes, gravadas num estúdio em Brooklyn. Porém, nem uma nota a mais foi acrescentada.

O resultado é um disco de ruptura. Uma homenagem do avesso. Se a Madonna fosse um quadro do Warhol, então digamos que os Deerhoof redefiniram-lhe a face pop com pinceladas surrealistas, geometrias oníricas e cortes epistemológicos capazes de agradar aos fãs e conquistar novos públicos. E, admitamos, passível de não agradar também nem a gregos nem a troianos. Contudo, o saldo é positivo para uma banda que já ultrapassou a maioridade e que não era para durar mais de duas semanas.

La Isla Bonita é à vez uma viagem frenética e minimal com explosões de insanidade. É preciso capacete e cinto de segurança, pois nem sempre sabemos quando nos aguardam momentos de desaceleração e travagem total ou quando o turbo é ligado numa parafernália sem rumo certo. O humor cartoon está de regresso no single cheio de beat “Paraside Girls” com a deixa girls who will play the bass guitar, mas a ironia também não foi esquecida em temas como American Dream: “You enter U.S.A. / Welcome to speech of freedom / You enter U.S.A. / Welcome to speech of freedom / Thank you for coming, get out now.” 

Mesmo nos temas mais parados, há um vazio que proclama uma velocidade vertiginosa, ao qual se sucedem ciclos sucessivos de vertigem, tecidos com guitarras atmosféricas, até ao epílogo de “Oh Bummer”, dando a deixa às bandas de inspiração noise pop e punk que têm de “fazê-lo mais forte, mais rápido, [e] com mais amor, baby”. Depois disto, se aguentarem mais duas semanas juntos, é aguardar pelo décimo quarto disco. Talvez, a kizomba à moda dos Ramones. Ou então não (se tiverem juízo)!