A voz de Julien Baker embala pela sua tristeza enquanto que a guitarra distorce o seu mundo vazio e são as palavras que carregam o peso da memória do asfalto. Diz-se que o tempo cura tudo, mas a cantora e escritora norte-americana não se leva pelo idealismo que embeleza as manifestações do seu sofrimento; não, apesar da sua notável crença em Deus – que demonstra em “Distant Solar Systems”, lado B do single “Funeral Pyre” lançado em março deste ano -, Julien não dispensa um pensamento racionalista.

O seu álbum de estreia a solo Sprained Ankle de 2016 é objecto de desabafo de um episódio desconcertante. Em 9 músicas Julien expõe um sentimento duro de culpa pela morte física de alguém que ama. Afirma em “Blacktop” ter escrito cartas de amor, cantando-as em sua casa, na esperança de reavivar a pessoa amada. Numa entrevista à AudioTree, Baker revela o seu fascínio pela literatura e pelo ensino, vindo a propósito afirmar-se influenciada pelo Romantismo Inglês do século XVIII, onde o romance confessional é construído através da expressão autêntica das emoções e sentidos, nomeadamente, através da escrita de textos intimistas.

Ao longo de Sprained Ankle Julien deseja não escrever sobre a morte, mas a memória que carrega não lhe dá alternativa senão gritar a sua voz como manifesto de tudo o que lhe pesa e confirma ter a mente doente, pois está consciente do mal ao qual se tem sujeitado e aceita o distanciar das pessoas de si. Em “Good News” afirma ter medo de que toda a situação acabe da mesma forma com um olhar apático na sua profunda depressão. Recorda o cabelo comprido daquele cuja opinião ainda lhe importa e reconhece preocupar os seus amigos com a sua atitude em público, dizendo And I’m only ever screaming at myself in public.

Turn Out The Lights, o novo álbum que sairá no final deste mês, explora o conformismo vivido por toda uma sociedade, mesmo perante os conflitos interiores. Por isso Baker, agora com 22 anos, faz-se exemplo de um sofrimento não fatídico e aceita impulsos de alegria e gratidão. “Appointments”, o primeiro single, demonstra a consciência do seu estado de alma sabendo que, através do seu público, poderá salvar-se, embora a depressão a leve pelos caminhos do niilismo, desacreditando da cura.

A terceira música, a qual dá o nome ao álbum, manifesta num traço confessional a sua fraqueza, afirmando haver ainda esse espaço vazio por preencher no seu interior, ao qual já se habituou. Em Baker, a solidão é protagonista da narrativa, ao explorar temas como a impossível compreensão pelo outro, as relações cortadas e, ainda, a procura de uma cura que pode não existir. “Claws In Your Back”, a última música do álbum, é uma pura demonstração da sua força, onde afirma ser capaz de amar a solidão, mudando de ideias, ficando.

O crescimento de Baker, conseguido através de uma diferente abordagem ao seu problema interior e muito graças à liberdade de expressão permitida pela editora Ardent Studios por onde já passaram, inclusive, nomes como John Hampton, Led Zeppelin, Bob Dylan e Cat Power, é notório a nível de som e de imagem. O seu som reflecte-se num folk alternativo preso ao lirismo do romance confessional, no qual Baker faz uso da sua voz fazendo-se acompanhar por uma guitarra eléctrica e, mais recentemente, por um piano.

Os seus videoclips para este álbum são também testemunhas da sua evolução, face aos anteriores: em “Appointments”, Baker mostra-se no interior de uma casa branca com três janelas por onde entra a luz natural, sendo inconscientemente levada pela presença transcendental de três raparigas que a acompanham na viagem de carro até ao horizonte, junto à água. Já o vídeo para “Turn Out The Lights” marca-se por uma forte imagem de solidão, com Baker a percorrer um espaço vazio de presença humana no qual caminha por entre árvores, perseguindo um pavio com a ponta em chama. Todo este percurso, cujo sofrimento se vai intensificando pela possibilidade que se dá de sentir, culmina num piano a arder com três janelas capotadas e recortadas junto aos pedais, sendo assim possível a analogia entre o piano e a viatura onde ocorreu o acidente. Outra analogia possível prende-se com a repetição do número três, número que na religião Cristã – em que Baker é crente -, representa a união divina, a santíssima trindade.

Julien Baker fala no novo álbum, com a mesma atitude paradoxal que desde sempre a marcou, sobre a felicidade através da dor, afirmando ser a felicidade não um destino mas algo que deve chamar para o presente. A norte-americana é um exemplo de não resignação e toda a sua experiência é contada ao mundo pela criação de canções para serem sentidas de forma extrema e mostrar o que significa viver uma depressão, com o sentimento de solidão a prevalecer sempre, ainda que rodeada de público. Assim, Baker não só é um exemplo de estudo da geração da tecnologia – alienada, desatenta e abandonada -, como se faz exemplo do indivíduo que procura com toda a honestidade ultrapassar o difícil transtorno da morte.

Com o lançamento de Turn Out The Lights a 27 de Outubro deste ano via Matador Records Julien Baker, que inicia a sua tour no norte da América, não dispensa a passagem pela Europa. Começando na Holanda e passando pelo Reino Unido, Irlanda, Bélgica, França, Alemanha e Espanha, o mês de novembro está reservado ao continente europeu. Julien passará pelo Festival para Gente Sentada no dia 18 de Novembro, no Theatro Circo, em Braga, depois de já ter passado pelo NOS Primavera Sound em junho passado.