Department M - Department M
70%Overall Score

O novo projeto de Owen Brinley, Department M, é uma prova de que o próprio tem muito mais para oferecer do que apenas os sons indie de uma guitarra. Ex-vocalista e fundador da banda de Leeds, os Grammatics, também vocalista do anterior projecto Colour of Fire e DJ, Owen Brinley começou a delinear este projecto após sentir necessidade de poder escrever e usar um instrumento diferente da sua guitarra. Foi então que após a sua saída dos Grammatics, o produtor James Kenosha (Pulled Apart By Horses) o convidou a gravar este que é o álbum de estreia de Department M.

Mas para perceber a genialidade de Department M há que conhecer o seu passado. Tudo começou quando após vários anos como DJ Brinley, juntamente com um amigo, decidiu abrir um pub de seu nome Grammar, que eventualmente iria dar origem à banda Grammatics. Muitas noites, muito álcool, muitos excessos de som acabaram por levar o próprio a descobrir, anos mais tarde, sofrer de uma doença auditiva grave e rara, tendo todo o mundo criativo de Brinley sofrido uma alteração profunda. Esse foi o momento que levou à decisão de sair da banda, devido às divergências criativas entre os membros do grupo, porque aquele já não era o caminho musical com que Owen Brinley se sentia preenchido. Existia a necessidade de colocar nas letras e na música a sua alma! Imaginem um mundo sonoro diferente do vosso! Onde aquilo que vos causa desconforto, no cérebro de Brinley é uma forma de arte! E assim nasce através de um arcaico sintetizador oferecido anos antes por um amigo, este promissor Department M, onde a guitarra com notas agressivas cria um balanço de dor misturada com a sua voz doce e ambientes electrónicos dissonantes e inimistas.

O primeiro impacto quando se ouve músicas como “I’ll Fax You An Apology”, single de estreia, leva-nos directamente a universos tais como IAMXCabaret Voltaire, ou até mesmo Depeche Mode. Na faixa “Pharmacy”, o músico retrata o momento particular da sua vida em que andava medicado de forma a conseguir controlar a sua ansiedade e toda a confusão entre realidade e pensamentos, bem como a extrema sensibilidade auditiva a certas frequências, sendo esta música um exorcismo do passado, tal como o próprio referiu numa entrevista. Mas o exemplo perfeito é a faixa “SleepWalker”. Sente-se uma cadência depressiva de dor e doçura ao mesmo tempo, como se o silêncio da noite entre quatro paredes escondesse segredos que gritam mudos, de noites sem dormir atormentado por pensamentos e palavras que nunca foram proferidas. Com uma voz doce e letras a lembrar a acutilante mestria de Brian Molko (vocalista, guitarrista e mentor dos Placebo), “We’re alive by the second prize/You mirror me fucking bleach the lies / So dry / So dry / So dry”, torna-se fácil fechar os olhos e dançar ao som da excelente “The Second Prize”.

Em resumo, este álbum de estreia faz a fusão perfeita entre três mundos: as letras que mexem com as emoções, as guitarras e sintetizadores que nos transportam a uma profundidade desconcertante e uma voz doce, quase ingénua, que fazem de Department M uma banda com relevância e um caso sério de “primeiro amor” sempre em repeat until we fall asleep.