Quem mais poderia lançar dois singles com quase um ano de interlúdio, de um álbum ainda sem nome, sem data de lançamento prevista e sobre a qual incidia uma gigantesca incógnita e, ainda assim, conseguir manter o interesse no sucessor de Morning Phase de 2014 com o seu lugar permanente reservado no topo da agenda? Só mesmo Beck, claro. Beck Hansen surgia em junho de 2015 com “Dreams“, aquela canção que então se apresentava aparentemente como aleatória e avulso sem nenhum disco apensado. Foram precisos quase dois anos para perceber onde efectivamente se iria encaixar a pop psicadélica à la “Electric Feel” dos MGMT daquele que veio a ser o primeiro tema revelado para o próximo álbum de Beck.

Só em agosto de 2016 se voltaria a ouvir o norte-americano com o hip hop afro-trópico-caliente modelado por electrónicas experimentais e profundamente quirky de “Wow” – ao qual se seguiu, dias mais tarde, uma remistura a cargo dos Mexican Institute Of Sound ainda mais penetrante nas florestas densas das Américas e ao qual não faltaram partículas microscópicas de sintetizadores mescladas com trompetes mariachi e o rap caribeño de cubanos nativos das selvas urbanas -, para um mês mais tarde revelar-se a segunda estrofe – “Up All Night” que recebe agora tratamento visual -, de uma rodela discográfica sem carimbo temporal à vista. E depois… nada. Um imenso mergulho de silêncio que durou até à semana passada, altura em que o norte-americano reemergia dos confins do whatever-he-did-in-between e relembrava a todos que não se tinha esquecido da promessa feita um ano antes.

Longe, bem longe de imaginar que apenas o final de agosto de 2017 iria desvendar alguma parte dos mistérios encerrados nos cofres de Beck. “Dear Life”, em partes iguais The BeatlesElliot Smith e humedecida com a inconfundível identidade sonora do norte-americano, deixava definitivamente cair as cacofonias e devaneios tropicais que nos tinham literalmente deixado a onomatopeizar o tema anterior, e derramava uma sobriedade confortável e familiar sobre o tal disco ainda sem nome e sem data de lançamento previsto que viria a obrigar as duas canções provenientes de um umbigo único e sensibilidades temporais e geográficas antagónicas a coexistir num mesmo alinhamento. O décimo terceiro pedaço de História com o selo Beck já tem nome – apropriadamente Colors será o título que levará -, e regista-se hoje nos sismógrafos Hensianos o epicentro de mais uma narrativa multicolor contida em “Up All Night”.

E porque de Beck tudo se espera – como qualquer alma minimamente versada em Beckology não estranha – o terceiro tema revelado de Colors passeia-se numa estrada completamente distinta das duas anteriores companheiras de disco. Mais a pender para um funk ligeiramente beijado pelo trip hop, o tema que vem resgatar as inspirações disco-funk de Midnite Voltures – o quarto disco do norte-americano editado em 1999 -, e traz consigo uma genética pop tão vincada como viciosa. O vídeo conta a história de uma guerreira que se perdeu no tempo e se protege com o seu escudo de ferro das festas mais nocivas, mantendo-se intocável na sua integridade.

Colors, o 13º álbum de Beck, tem data de lançamento marcada para dia 13 de outubro pela Capitol Records. Com tanto número azarento pelo meio, espera-se que saia mesmo no mês 10. “Dear Life” e “Up All Night” podem ambas ser ouvidas mais abaixo.