Nunca se falou tanto em desconstrução como nos dias de hoje. O método de interpretação do filósofo francês Jacques Derrida discorre sobre a característica binária dos discursos, sugerindo um desmantelamento crítico da forma de pensar tradicional. Nesse caminho, existe também a teoria do alemão Edmund Husseril, que escreveu em 1962 A Origem da Geometria, obra na qual refere que a desconstrução se apresenta como a decomposição dos elementos de uma estrutura. É aqui que se fica a pensar: o que tudo isso tem a ver com uma banda de Piracicaba, São Paulo? Nós explicamos.

Tendo lido sobre o termo e discutido sobre a aplicação em diversas esferas da vida, calhou que quando ouvimos Odradek pela primeira vez, estávamos nessa brisa maluca de entender se a filosofia poderia funcionar musicalmente. O som do power trio formado por Caio Gaeta (bateria), Fabiano Benetton (guitarra) e Tomas Gil (baixo) tem raízes no math-rock, um género musical que surgiu no final da década de 1980 como um misto de punk rock, post-rock e progressivo e que envolve tocar dois, três ritmos em apenas uma música. O resultado é um caos sonoro elaborado, agressivo, com elementos desconexos que soam de forma surpreendentemente uniforme. É como se se pegassem em todo o formato tradicional do quadradinho 4×4 e se transformassem em pedaços de vários tamanhos e cores. E tudo o que esperamos ouvir de uma banda convencional será revisto.

A primeira vez em que ouvimos Sun Seeker, imaginámos se era possível reproduzir esse som de forma idêntica ao vivo. Ingenuidade. No show de lançamento na Z Carniceria, um espaço em São Paulo que tem aberto as portas para bandas independentes do país todo, a banda mostrou que além da guitarra fritante, da bateria perfeccionista e do dinamismo do baixo, tem capacidade para hipnotizar uma casa cheia com um som completamente imprevisível.

Sun Seeker surgiu da colaboração dos Odradek com artistas de Singapura: os Sphaeras, que já tinham lançado uma colaboração com uma banda screamo, os Two Seas, além da parceria com a ilustradora Dawn Ang (que fez a capa) e a cantora Weish, que soa como uma versão contemporânea da Björk em “My Wish Is Your Command”.

Com produção de Franco Torrezan, o álbum foi gravado entre São Paulo e Piracicaba, no Family Mob e Casarão Music Studio, respectivamente. A gravação da bateria contou com a ajuda dos produtores Estevam Romera, Bruno Lafaza, Jean Dolabella e André Sangiacomo, que estão envolvidos em vários projetos interessantes na cidade. Vale a pena mencionar que os Family Mob são dos Ego Kill Talent e já receberam os Far From Alaska, duas bandas que têm ganhado os festivais brasileiros e se começaram a projetar internacionalmente em tempos recentes, sendo que os Alaska chegaram a participar do SXSW.

Segue em baixo a entrevista que fizemos com o Fabiano (guitarra) e Caio (bateria) com mais alguns detalhes de Sun Seeker.

T: Quando começou o álbum a tomar forma e qual foi a primeira música que criaram?
Fabiano: Boa pergunta! hahaha! As colaborativas foram escritas esse ano. 2016 foi tão intenso por causa delas que nem lembramos mais qual foi a primeira música escrita. Talvez tenha sido “Triscaidecafobia” no começo do ano passado. Chegámos no Family Mob em junho de 2015 para gravar seis músicas e, dessas só usamos três, pois não estávamos satisfeitos com o resto.

T: O que ambas as bandas curtiram no nome do álbum? Levando em consideração que Singapura amanhece 12 horas na frente.
Fabiano: Sun Seeker vem do título da arte de capa da Dawn Ang. O baixista dos Sphaeras sugeriu usarmos para o álbum e nós nunca perguntámos a brisa deles em relação a isso. Eu viajei nesse nome justamente por causa desse processo das duas bandas de lados opostos do planeta se conectando para criar música. A gente sempre se perdia na comunicação pela distância e fuso-horário, foi uma coisa bem louca.

T: Quem é a velhinha que fala “Caio, isso é amedrontador” em “Tétrico”?
Fabiano: Um dia estávamos sem ideia para criar letras e passámos na casa da vó do Caio para ver se ela nos inspirava. Acabou que ela contou sobre uma época tenebrosa da vida dela e daí surgiu “Tétrico”, palavra que ela usou para sintetizar toda essa experiência que teve na juventude. Quando voltámos pra casa ela mandou essa mensagem de voz para tentar nos dar mais ideias para o som. É uma senhora muito fofa, parece a Palmirinha e manja muito de música.

T: Além das faixas do álbum, pode indicar duas músicas dos Sphaeras pra nossa playlist?
Fabiano: “Same Decaying Matter” (ouça) é uma verdadeira obra de arte. É a música mais longa deles e te leva numa viagem indescritível se você se entregar. Gostamos das progressões tortas de acorde, das quebras de tempo, da emoção das melodias, das texturas, tudo é feito com muito bom gosto. Todos esses elementos se complementaram muito bem no nosso som e deu no que deu. “Ensemble” é outra música do primeiro álbum deles que impressiona muito. E foi criada de maneira colaborativa com outra banda também, os Two Seas.

T: Falem um pouco sobre a artista que criou a capa.
Caio: A Dawn Ang é uma artista que trabalha com lápis e papel. Ela tem um site, o aeropalmics.com, que vimos pela primeira vez por indicação do Axel (Sphaeras). Ficámos de cara, levou pouco tempo pra ver o quão único é o trabalho dela, e não sobrou dúvidas de que gostaríamos de algo assim para a capa. Os desenhos dela são surreais, não dá pra descrever, olhem o site com tudo. Mas algo que chama a atenção é como ela pesca fragilidades humanas e insere nelas um universo sublime, com a delicadeza de um lápis.

T: Como os Family Mob colaboraram com a qualidade do álbum?
Caio: Os Family Mob foram uma surpresa. Nos inscrevemos na Rubber Tracks e só depois vimos quão insana é a qualidade desse lugar. A equipe deles simplesmente mudou nosso conceito sobre gravações, nos fizeram perceber diversos erros, aprendemos muito com a experiência desse pessoal. Talvez as gravações que vieram depois de lá, “Sun Seeker” e “My Wish is Your Command” tenham saído até melhores, porque levamos adiante os conselhos do Jean Dolabella e da turma, que valeram ainda mais do que os equipamentos de primeira.

T: O que vocês mais curtiram em colaborar com Sphaeras?
Fabiano: A distância coloca um certo limite no processo criativo, algo nem sempre negativo. É fácil se perder nas ideias quando se faz música sozinho, às vezes a cabeça vai longe e ninguém acaba entendendo sua brisa. Uma pessoa do outro lado do mundo, com outras referências, outro ouvido, julgando aquela parte, falando que é ruim ou gravando algo inesperado por cima te faz crescer como músico. Temos que aprender a ouvir o outro e estar mais dispostos a transformar nossas ideias, isso foi um exercício ótimo.

T: O que a música te faz sentir?
Caio e Fabiano: Coisas que nenhuma palavra explica, é mais do que conceitual. Mas são coisas fortes, atingem alguns sentimentos que a gente só descobre na música. O chato é que às vezes nos acostumamos com uma forma de escuta mais analítica, típica do nosso meio, de quem compõe e grava bastante. É difícil pegar uma música e não ficar reparando nos timbres e coisas de maneira técnica. Dá vontade de esquecer tudo por um momento só pra voltar a ouvir de outro jeito, julgando menos e escutando mais.