Destroyer - Five Spanish Songs
75%Overall Score

Dan Bejar é homem para fazer um disco de covers de uma banda da sua preferência, integralmente cantado noutra língua que não o inglês. Five Spanish Songs, o mais recente EP assinado pelo seu alter-ego colectivo Destroyer, é isso mesmo. Como o título revela de bandeja, a língua é o espanhol, e as cinco canções que lá encontramos são originais de Sr. Chinarro, por sua vez, alter-ego do sevilhano Antonio Luque, autor das mesmas.

Five Spanish Songs nasce da vontade de fazer algo diferente, à qual se juntou a admiração de longa data por Luque. Antes da edição do EP, Dan Bejar anunciou-o, declarando a língua inglesa como uma limitação que nada mais tinha para lhe oferecer, e que, por outro lado, sendo o espanhol a única outra língua que conhecia, e as canções de Sr. Chinarro as únicas em espanhol que conhecia bem, seria esse o mote do novo projecto. Na verdade, basta debruçarmo-nos um pouco sobre a história e a discografia de Sr. Chinarro para encontrarmos diversos pontos em comum com os Destroyer de Bejar. Ambos projectos indie prolíficos iniciados nos anos 90 como colectivos, mas acabando por tornar-se bandas-de-um-homem-só, dada a rotatividade dos restantes membros em torno de uma peça criativa central, peça essa, personalidade musical fortemente marcada e enigmática – em disco e em palco – de onde deriva poesia de significado críptico, repleta de imagens quotidianas, coloridas de metáforas e surrealismo. Sonoramente, ambas as bandas são geralmente classificadas como rock alternativo, mas o termo acaba por ser  limitativo, já que tanto Bejar como Luque não se satisfazem com um estilo uniforme e não param de explorar diversos caminhos ao longo da viagem musical, que se inicia em registos lo-fi sub-desenvolvidos, mas que vai ganhando complexidade disco após disco, passando até – também ambos – por uma fase de enamoramento por alguma electrónica, a qual Bejar voltaria a introduzir mais recentemente na sua música. Entre comparações e referências assumidas, citam-se nomes como David Bowie, Scott Walker, Pavement, Echo And The Bunnymen e New Order.

Descobertos tais pontos de aproximação, parece assim bastante natural que Bejar se identificasse com o projecto de Antonio Luque e se sentisse confortável para o absorver na sua própria música e o re-interpretar à sua maneira. E a verdade é que a música e as palavras de Luque imiscuem-se na sonoridade de Bejar de tal maneira, que quase parece terem sido escritas propositadamente para a banda canadiense. A surpresa (ou não) está na mudança de direcção relativa que este EP representa em relação a Kaputt, o longa-duração imediatamente anterior, que marca definitivamente os Destroyer como uma das bandas de maior relevo no panorama musical actual, recebido com o aplauso unânime da crítica generalizada e distinguido por diversas publicações da especialidade como um dos melhores álbuns de 2011. Perante tal entusiasmo e reconhecimento, cria-se a expectativa do que vem a seguir. Kaputt englobava, já em si próprio, uma viragem estilística marcada, em relação à discografia anterior dos Destroyer – indiciada nos EPs Bay Of Pigs e Archer On The Beach, editados nos dois anos anteriores. De produção meticulosa, o álbum de 2011 revelava-nos a veia mais melódica e mais chill de Dan Bejar, vestida dos arranjos mais limpos e sofisticados da história da banda entre guitarras, teclados, saxofone e coros femininos, resultando num disco de uma sensualidade pop altamente viciante.

Five Spanish Songs, contudo, apenas tem em comum a qualidade da gravação. De resto, traz-nos de volta uma sonoridade mais orgânica, mais próxima da de álbuns anteriores como Destroyer’s Rubies e Trouble In Dreams. As guitarras readquirem protagonismo, o sintetizador e o saxofone voltam para o armário. No entanto, isso não lhe retira mestria. A admiração e respeito de Bejar pelas composições de Luque é evidente na sua dedicação à re-interpretação dos cinco temas escolhidos. Numa apreciação global, Bejar e os seus destroyers (que desta vez se mantêm, na sua maioria, desde Kaputt) acrescentam-lhes corpo, atribuindo-lhes uma sonoridade mais cheia, em que as guitarras, o baixo e a reverberação aconchegam as melodias de Luque em arranjos mais redondos e quentes. “Maria De Las Nieves”, a abrir, é logo disso o melhor exemplo. “Del Monton” e “El Rito” animam e aceleram um pouco o ritmo, precedendo o grande momento do EP – o soberbo “Babieca”. Sendo já um tema magnífico na sua génese sevilhana, a versão irrepreensível dos Destroyer eleva-o a um nível superior de genialidade, valendo e justificando, por si só, toda a existência do EP. Não se afastando muito do original, a versão de Dan Bejar acrescenta-lhe, porém, emoção e dramatismo, especialmente no fabuloso segmento instrumental final, através da inclusão inteligentíssima de uma secção de cordas. “Bye Bye”, outro grande momento, encerra o curto disco em registo acústico, reduzindo (e melhorando, convenhamos) o arranjo mais ritmado do original para a simplicidade, à la Kings Of Convenience, de duas guitarras apenas – uma acústica e uma eléctrica.

É curiosa a opção estilística de Bejar em fazer suceder a um disco grande e ambicioso como Kaputt um EP que, em quase tudo, é o seu oposto: um disco curto, de produção simples, arranjos orgânicos e canções imediatas, escritas por outra pessoa e cantadas noutra língua. De resto, esta pareceu ser uma intenção consciente. Em entrevista, Dan Bejar admitiu que o que pretendia era precisamente esta simplicidade:

Foi tudo muito rápido, simplesmente a apreciar o acto de fazer música, não perdendo muito tempo com decisões, entrar no estúdio e sair com um pequeno disco na mão, duas semanas depois.

Five Spanish Songs é um disco extremamente bonito e honesto de alguém que nunca nos habituou ao óbvio. Dan Bejar não correu a fazer o Kaputt 2 para tentar segurar o hype. Quis antes sair do seu próprio umbigo por um bocadinho e pisar outro chão. Integridade desta natureza, também no mundo da música, parece rara nos tempos que correm.