O Homem erra, a máquina falha e o mundo avança e pula. A relação platónica consumada Homem-Máquina estaria longe da mente de António Gedeão quando colocou no papel as palavras de Pedra Filosofal, um dos símbolos maiores da literatura em língua portuguesa. Mas o sonho comanda com certeza a vida de Cécile Schott, a frágil figura que veste a pele de Colleen desde 2001 e que já deixou por cá, no abençoado planeta que se partilha com ela, sete álbuns: Colleen chegou este ano ao sétimo disco. Se chegou à perfeição em forma de colecção de canções, dependerá dos receptores, mas o álbum lançado em Outubro passado, A Flame My love, A Frequency, é claramente um disco de transformação. Interna? Criativa? A dor marca, molda e redescobre e o novo longa-duração de Colleen é assumidamente um trabalho de dor impulsionadora de evolução. E o sonho semper praesens.

Escrito em 2015 e 2016 durante um período marcado pelo estado de saúde grave de um familiar próximo, o disco é o catalisador de um processo de composição encontrado nos atentados de Novembro em Paris, onde Cécile estava de passagem. O sítio errado na hora certa. A dor marca e molda mas também oferece a esperança e a luz, um elixir de cura e de vida. A Flame My Love, A Frequency é essa procura de imortalidade espiritual pelo encontro com a humanidade, com o reino natural e com a simplicidade… nem que seja uma simplicidade feita ao jeito de Colleen, entre experimentações, cabos que se ligam e desligam compulsivamente e, desta vez, mais longe dos instrumentos que despedaçava em partes milimétricas para reconstruir em formato de canções.

Colleen regressou a Lisboa depois da passagem ao comando do disco de 2015, Captain Of None. Mas esta já não é a mesma Cécile, embora seja ainda aquela miúda tímida que brinca às construções sonoras como um capitão de areia numa praia algures lá em cima… lá em cima ou cá em baixo, mas vista ao microscópio por um Deus intrigado e curioso com os motivos celulares que refugiados no acaso se encontraram para construir esta personagem.

A Galeria Zé Dos Bois repete assim a recepção mas a francesa não se vem repetir. Não há timbalões de chão, não há a viola de gamba conectada a uma série de pedais e processadores de antigamente. Há, em vez disso, uma visão perfeitamente futurística – ainda que de maquinaria analógica -, de uma nova forma de se aproximar da procura pela alquimia da vida, da transformação. Em vez de folhear páginas com pautas, Colleen vira e revira cábulas semelhantes a esquemas eléctricos que confessa já saber by heart, enquanto atrapalhada tenta perceber se “Winter Dawn” está demasiado rápido ou não. Ela transpira cansaço e o corpo humano entra em estados compensatórios sempre que não se encontra nas suas capacidades plenas. Cada uma das folhas é a pauta eléctrica para cada uma das canções que fazem parte do alinhamento da noite. Um set que segue a par e passo todo o disco que Colleen traz para mostrar na primeira noite da digressão europeia.

Uma sala cheia de gente, um espaço cheio de burburinhos e conversas paralelas que se afogam imediatamente em si a cada entrada para cada tema – com excepção para as camaradas espanholas que fizeram a sua movida verbal flutuar acima de tudo, apesar de estarem do lado de fora da sala -, este foi o aquário de sempre transformado em esfera de sons líquidos, em bola aquática de sensitividade e sensibilidade. Colleen tira cabo, mete cabo, desfila os dedos finos como os lábios finos que sorriem de forma interna por entre os finos cabelos que lhe caem sobre o fino rosto iluminado pela luz lo-fi que habitualmente define a intimidade do palco da Galeria. O lado luminoso das luas artificiais é o lado luminoso do rosto de Cécile. O lado luminoso da luz negra e mecânica mas ao mesmo tempo orgânica da qual é extraída a sonoridade de A Frequency. As canções colocam-se do lado de fora de Colleen olhando para dentro e olhando para trás e para um passado inalterável.

No encore, Schott avança para dois temas mais. A repetição novamente sem repetição e Colleen regressa a “The Night Of The Hunter” tal como em 2015 mas com o aviso à navegação que o capitão tinha há muito virado o leme do original do filme do mesmo nome de Charles Laughton. Esta é a versão da versão de há dois anos, uma versão em evolução. By my book it’s a good thing, diz ela.

A noite chega ao fim com a repetição da repetição… outra vez, porque a repetição não é estanque e nada se repete de forma igual. Colleen volta a “Summer Night (Bat Song)” mas anuncia-a como a happy version de uma música de acordes negros. Conta a história da canção que serve de alguma forma de história do disco que acaba por se fundir na história do que se entende por Colleen. Na verdade, da história que deveria definir todo e qualquer um. Final de tarde na casa dos pais em França, a mesma casa nos subúrbios onde passou a infância e a adolescência, a observar com o mesmo fascínio de antes os pássaros que voam para se despedir do dia e que são substituídos enquanto o sol se vai, por morcegos. O princípio e o fim e Cécile, menina nos primeiros anos da quarta década de vida, à janela. Um deles voa na sua direcção como que querendo invadir o seu presente, trava e volta para trás, para o jardim da casa dos pais. Colleen reflecte sobre a ambição de querer parar e voltar atrás e a impossibilidade da vida humana recorrer à ecolocação. Evitar obstáculos?! Não, encontrar a paz e a aceitação da dor e da evolução, do errado e do corrigido. Colleen e a anatomia da vida, echolocation is not allowed.

Colleen parte com a segunda versão da canção do morcego. I leave you with good vibes, diz. E deixa mesmo. Quase uma hora e meia entre o espaço profundo e a condição humana, um baile negro de época sem orquestra nem salões de ouro e sumptuosidade mas repleto de uma delicadeza que nenhum ouro pode comprar. Uma noite com Cécile e um desencontro entre o passado e os instrumentos clássicos usados pela compositora francesa e o futuro actual que está sempre a ser passado, recorrendo a novas linguagens meramente maquinais. Colleen é o espaço entre uma conversa entre o humano e o divino. Deus Ex-Machina, a fauna em movimento e a filosofia natural a ensinar a tabuada aos andróides humanos. A noite leitosa escorre pelas ruas do Bairro Alto enquanto as estrelas e as criaturas se desencontram novamente nas linhas dos astros.

Colleen @ Galeria Zé dos Bois by Vera Marmelo

Colleen @ Galeria Zé dos Bois by Vera Marmelo