Diagrams - Chromatics
75%Overall Score

Um apartamento hi-tech cheio de incensos hortelã e um plasma com uma vista electrónica para o campo. Ou o seu contrário, com embalagem diferente, mas a mesma placidez de fabrico; o campo numa aldeia de xisto, mas a cidade a entrar 24 sobre 24 horas com as suas toneladas de bytes e debites. É mais ou menos isto o que têm para nos oferecer cada uma das delicodoces faixas de Chromatics, o segundo álbum dos Diagrams. Não é muito lisonjeiro para a banda de Sam Genders? Talvez, mas não é o pior dos mundos nem o menor dos sinais dos tempos nos dias em que vivemos.

Todo o álbum respira uma espécie de crise de re-emergência. É um disco o mais genuíno possível de electrónica-folk. Claro que a banda carrega o peso e o rótulo de indie-plus-techno, mas os galeses nunca disparam num registo full on electrónico, mantendo antes um equilíbrio saudável com os sentidos e os cheiros do campo. Após o álbum de estreia, Blacklight, o novo disco apresentava-se naturalmente como um teste de fogo à consistência dos Diagrams. No conjunto, Chromatics é um trabalho bastante ecléctico, que pode agradar aos fãs mais spacey-indie, mas que reúne condições para ir mais longe e provar que Genders tem bastantes mais coelhos para tirar da cartola.

“The Light And The Noise” é talvez o melhor exemplo da personalidade deste disco. Um tema clean, com evocações house-martianas e um brilho psych, em que a individualidade de Sam Genders se manifesta sem, no entanto, colidir com o poder de persuasão do todo. À medida que o álbum se desenrola, a matriz sonora tem uma óbvia correspondência na qualidade lírica dos temas. A faixa-título, “Chromatics”, encarna perfeitamente a essência do álbum, desmultiplicando-se numa espécie de oceano de ondas delicadas de harmonia contidas por uma instrumentação segura. Como uma canção de embalar, a melodia acolhe, envolve e acalma. Já na slotmachine de “Shapes”, somos lançados para fora da realidade, para uma terra estranha e onírica, geografia transcendental e de puro prazer.

Sam Genders e companhia conseguiram aqui um belo disco de planícies e geografias horizontais. Para o campo e a cidade. Ou ambos. O que não é a pior das maneiras de olhar em frente e fitar novos horizontes neste início de ano.