A Sumo Pontífice das Trevas regressa, depois de um interregno de quase uma década, para paralisar corações em dose dupla. No início do mês de março, Diamanda Galás deu à luz dois gémeos discográficos, aparentemente diferentes, mas imbuídos do mesmo código genético. At St. Thomas The Apostle Harlem, o registo do notável espectáculo dado pela californiana no ano passado e All The Way, um álbum com reinterpretações exorcizadas de algumas das mais emblemáticas músicas de jazz.

Diamanda é sinónimo de aprendizagem da palavra enquanto arte, de dissecação irrepreensivelmente perfeita de um texto considerado maldito em pura emoção. É sinónimo de desconstrução de cada linha desse texto, cada palavra, cada sílaba em arranjos vocais difíceis de atingir ao mais comum dos mortais. É sinónimo de sermos confrontados com o mais primitivo e cru do nosso ser. É ter a tentação de silenciar a sua voz mas ficar inane com a violência insana do poder com que esbofeteia a alma.

Everyone thinks it’s about death, but for me, it’s about a person who’s trying to fight the desire to kill himself, because everything has become too much. And it’s just like, ‘Can’t you give me a fucking break?’ And the answer is: ‘No.’

Ninguém mais no mundo canta sobre a dor e o caos, sobre a perda e a morte, sobre o desalento e o terror como Diamanda Galás. Ninguém tem a capacidade de com um complexo e destruidor alcance vocal submergir na imensidão de sentimentos que se desprendem da capacidade inumana que empresta às suas cordas vocais e do contraste com que faz poesia soturna ao piano e, ainda assim, sem saber racionalizar, conseguir com que fiquemos purificados desta descida ao Inferno: feridos, mortificados, com nódoas negras mas de algum modo renascidos e reconciliados com a cruel natureza do ser Humano numa rendição à terrível sobrevivência do Caos.

A experiência que advém de ouvir um álbum como All The Way não reside na escolha de músicas que, sendo conhecidas, poderá erradamente fazer sentir o mais incauto que tornará a audição mais pacífica. Estas versões re-imaginadas por Galás foram destruídas, estraçalhadas, esmagadas, transformadas em pó e só depois erguidas utilizando unicamente o texto escrito como ligação base ao anterior. Como a intrusiva versão de piano de “Round Midnight” de Thelonious Monk ou o popularizado por Chet Baker ‘The Thrill Is Gone”, em que somos golpeados de surpresa, e sem qualquer hipótese de defesa caímos no assombro rouco e paralisante da saudade irremediável do que nunca voltaremos a ter e daquilo que um dia demos como garantido mas que num estalar de dedos se perdeu, restando apenas espernear até a dor passar.

Seja reflectindo sobre o que conhecemos do amor dramatizado com raiva quando canta “You Don’t Know What Love Is”, ou sobre a enormidade da perda na peça central do disco “O Death”, Diamanda Galás vai tecendo pacientemente a sua teia, e enreda aos poucos com um paciente e frágil sustenido, um quase sussurro embalado com as notas etéreas do seu piano para depois largar um impossível uivo vindo da jugular, conseguindo prolongar uma só nota durante um tempo agonizantemente longo.

Existe uma profunda pureza na execução das suas criações que lhe empresta uma intensidade que deixa sem fôlego e sem reacção. Os sentimentos que escolhe são profundos e terríveis, e a sua resposta é sempre expurgada através da raiva e do sofrimento interligados por um invisível cordão umbilical. E quem a ouve, em especial os afortunados que já a viram ao vivo, sabem quão extraordinária é esta experiência levada ao nível do insuportável. Numa das faixas de At St Thomas the Apostle Harlem intitulada “Die Stunde Kommt”, Diamanda Galás consegue levar o espectador numa viagem primitiva de catarse sem que o próprio consiga intelectualizar ou julgar esteticamente o que está a ouvir. Trata se de ouvir e não tecer julgamentos redundantes ao ruído que se levanta dentro de nós. Ouvir e sentir mesmo que esmague por dentro.

Para os que entram agora no submundo do imaginário de Diamanda Galás o único conselho válido é que se deixem submergir pela sua intensidade. Que se deixem golpear sem levantar os braços em defesa. Sofram os murros no estômago, as chapadas na cara, o retinir ensurdecedor nos tímpanos. Sintam, oiçam e deixem que a coragem de cantar a desolação do mundo, de contar essas paisagens repletas de dor que tememos percorrer, se façam ouvir por ela. É assim, desconstruindo essas aparentes verdades acerca de temas tementes à sanidade emocional que Galás lembra que o passado não tem de sufocar o presente e que não é um escape fácil. É para ser exorcizado e cicatrizado.