Simetrias inexistentes. Proporcionalidades inalcançáveis. Heresias aconchegantes. Em Braga nunca haverá, ou talvez só na nossa imaginação, igual número de cafés, por igual número de igrejas. Café Vianna, A Brasileira, Café Lusitana e a Casa das Tíbias e outros tantos que serão sempre em menor número e em escala mais reduzida, quando em comparação com as igrejas.

Aqui há uma igreja em cada esquina. Mas, e durante o Semibreve há uma harmonia entre os espaços de matriz católica e pagã. Durante três dias, de 27 a 29 de Outubro, nasce uma sublimação de uma cidade, o desejo de descoberta, o caminho, os caminhos. O Theatro Circo e o gnration como pólos aglutinadores para os concertos de Visible Cloaks que, como refere a Pitchfork, “difíceis de classificar – música ambiente, fascinante mistura de orgânico e sintético, passado e futuro”, GAS, projecto de Wolfgang Voigt e que terá nova visita ao nosso país no Teatro Maria Matos a 15 de Novembro, Karen Gwyer, Deathprod, Lawrence English, que recorrendo à sua nota biográfica “trabalha os diferentes estímulos da percepção e da memória”, Valgeir Sigurdsson ou as ramificações no Mosteiro de Tibães, para uma workshop de Lawrence English e a Capela Imaculada do Seminário Menor para concerto de Steve Hauschildt. E como deixar de fora a Livraria Centésima Página para conversas no jardim, enquanto se percorre, novamente, uma e outra estante ou ainda os Encontros da Imagem, a celebrar data redonda, trinta anos.

Tracker Magazine convidou José Crúzio para fazer um diário fotográfico, mais que um relato do que foi a presente edição do Semibreve. Registo muito pessoal do que foram os seus dias por Braga. No entanto, ao ver estas imagens, não nos encontramos somente perante a possibilidade de (re)visitar esses dias, mas sobretudo podermos redesenhar uma cidade e todas as suas potencialidades. É prestar a mais que justa homenagem a um festival que se define como de “música electrónica e arte digital”, mas e que nos atrevemos a acrescentar com todo o arrojo que nos é permitido, um marco na paisagem cultural em Portugal, não só por desenvolver um trabalho de qualidade e contínuo numa cidade fora da órbita de influência de Lisboa e Porto, mas, e talvez isto para nós seja o mais importante, permitir confrontar-nos com projectos que pela sua inegável capacidade exploratória nos fascinam e nos obrigam a um constante reposicionamento e confrontação interno.