Somos chamados por ritualistas timbales e recebidos por uma emotiva voz rouca que lembra o ídolo Joe Strummer dos The Clash. E isso deve-se simplesmente a “Shards”, a canção que abre Modern Knowledge, o primeiro álbum dos irlandeses DIVAN co-produzido por Brent Knopf (EL VY, Menomena) e Ian McNulty (Ramona Falls) lançado há pouquíssimos dias.

O trio vem da capital Dublin e DIVAN não é a primeira banda dos seus membros, facto que ajuda a explicar a maturidade do seu som. Jamie Clarke (voz líder e guitarras) e Marc Gallagher (bateria) estiveram juntos nos The Ambience Affair, enquanto Connor Deasy (guitarras) passou pelos The Gandhis e pelos Tomorrows. Cientes de como queriam soar e orientados por dois produtores que também são músicos de bandas – habituados a tocar para diferentes públicos -, os DIVAN estavam bem encaminhados para criar um sólido álbum de rock n’ roll, que soa bem em casa e sugere que, com aquelas canções, a banda encantará nos concertos.

É inevitável destacar o tema “Shards”, o tema escolhido para a amostra de introdução a Modern Knowledge. Em algumas entrevistas, Jamie Clarke explicou por que motivos é um óbvio single, afirmando que queriam compor uma signature song capaz de imediatamente cativar os ouvintes. E, de facto, os DIVAN conseguiram uma malha distinta que ainda por cima é implicativa para quem a escuta: além dos dramáticos timbales iniciais, as palmas que batem o ritmo da canção apelam à reacção também com as mãos, permitindo antever espontâneos aplausos de acompanhamento nos espectáculos.

Porém “Shards”, que é evidência de algo que os DIVAN fazem bem, não representa nem a música nem o estado de espírito de Modern Knowledge e nem sequer tudo o que Clarke faz com a própria voz. Ao longo do disco, o som dos DIVAN apresenta-se mais complexo, mais melodioso e, logicamente, menos impetuoso com a voz de Jamie mais próxima do introvertido Ben Gibbard dos Death Cab For Cutie e com protagonismo das guitarras líricas sobre a bateria que assume o ortodoxo papel de suporte orientador – e algum espaço para teclados, como em “A Clarity Appears”.

Há alterações de humor dentro de algumas canções, caso da catárquica “The Soullest Kind”, gradualmente intensificada até o rock n’roll soltar arrependimentos como cavalos galopantes. Mas em geral, a Modern Knowledge é de um jovem homem que, superando o estereótipo retro do macho que não fala das suas inseguranças, verbaliza eloquentemente os seus próprios dilemas, remorsos – em “Sales Of Lakes -, e anseios gerados pelas transições da adolescência para a adultez, e da pacata vida rural para a vida agitada numa movimentada cidade capital como Dublin – já no final do álbum, “Darkened Room” é exemplar daquela introspecção.

“Darkened Room” é, também, exemplar dos elaborados arranjos a que o produtor Brent Knopf nos habituou nos EL VY com Tom Berninger, arranjos cuja qualidade pode ser apreciada em canções mais optimistas e confiantes, caso de “Making Plans” que está a meio de um alinhamento concluído sensatamente com “Veracity”, faixa que deixa vontade de escutar mais DIVAN uma vez que não cessa num fade out gradual.

Resumindo, Modern Language é um belo disco de cordas maduras, com guitarras frugalmente dedilhadas numa candura que assenta suavemente na bateria herdeira de um passado shoegazer. Entre oportunas erupções… Confirmem, rolando na fluidez de “Preserving Light”.