Ela é checa e faz da percussão uma fortaleza xamânica; ele é italiano e percorre com a guitarra diversas latitudes de som. Kateřina e Andrea são os Oswaldovi, que estiveram em Lisboa na apresentação ao vivo de Songs About Persecution, um disco fruto de um mundo profundamente globalizado e que não fecha os olhos à crise dos refugiados.

Percorre-se o longo corredor escuro que medeia a entrada do Damas e a sala que habitualmente serve de incubadora a actuações musicais de carácter independente, como se Lisboa se tivesse perdido algures num vácuo inóspito, anónimo e intemporal sem grandes sinais de intervenção humana. Nem o par de cartazes monocolores deixados aparentemente ao acaso numa das paredes cor de carvão, cumpre a função de localizador geográfico, talvez porque a negritude do espaço que parece inacabado é apenas interrompida pela luz que chega já desbotada dos néons verde-florescente da parede oposta. Podia ser Kiev, Ho Chi Min, Beirute ou Manila.

As poesias e as palavras de ordem “Fora Temer!” escrevinhadas nos recantos da sala que acolhe os concertos situam vagamente a noite num habitat lusófono. Enquanto isso, o burburinho de várias pronúncias que se vai acentuado entre o bar e o palco, à medida que o tempo tropeça na incapacidade tipicamente lusitana de cumprir horários, demora também a revelar que é na zona da Graça que se junta um público transnacional para assistir à apresentação dos Oswaldovi, um duo cujas fronteiras musicais se diluem algures entre o eixo Itália-República Checa e cuja arte desafia a rigidez e a artificialidade das fronteiras políticas.

Os primeiros momentos da madrugada mergulham no universo minimalista de tambores tribais, pratos sibilantes e cowbells aguçados da percussionista checa Kateřina Malá e na guitarra de tonalidades ora rock, ora noise, ora experimental do vocalista italiano Andrea Rottin. Durante 45 minutos, sustém-se o fôlego num triângulo intercontinental que transporta o cenário mais árido da América do Norte para as areias quentes no deserto do norte de África, ao mesmo tempo que se dança nas castas mais boémias da produção musical do leste europeu.

Frente a frente como num duelo entre nações beligerantes, Kateřina e Andrea encaminham um público também ele proveniente de várias partes do globo para os domínios do  blues antigo, aquele da comunidade negra que trabalhava os campos de algodão, da música tuareg cartografada no Mali e no Níger e do spaghetti western das décadas de 60 e 70. Enquanto isso, projectam-se na parede do fundo sequências de imagens a preto e branco do mundo e da vida que se vão substituindo em contínuo. Perante os cânticos quasi-xamânicos de Andrea, que passou a melhor parte da actuação de olhos fechados e cuja rouquidão e idiossincrasias vocais resgatam a memória de um Kurt Cobain, e os golpes de percussão de Kateřina, potenciadores de um transe semi-consciente, qualquer sentimento de nacionalidade ou pertença geográfica transforma-se facilmente numa rebeldia apátrida que encara o mundo como um todo.

Em menos de uma hora, o duo faze contrastar o rock politizado de canções de pulso tenso, como “Responsible City Song”, “Oblivion Song” e “Silent Agreement”, com a delicadeza psicadélica envolta em talgemust de “Black Water” e “Reward”, alargando-se ao hipnotismo lânguido de guitarras aquosas de “Memory Song”. Há tempo ainda para Kateřina arrancar sibilares dos pratos com um arco de violino e Andrea fazer vibrar uma pulseira de guizos que entretanto enlaça no tornozelo, qual exorcista feiticeiro invocador dos deuses. Há instantes que denunciam a mestria de uma banda, seja na forma como todos os instrumentos se entrelaçam numa cronologia matematicamente precisa, seja no entendimento silencioso entre as partes do coletivo que fazem depender de si o andamento de um motor que se quer meticulosamente calibrado. Haverá, certamente, palcos maiores reservados para os Oswaldovi num futuro não que não se avizinha muito longínquo.

Filósofos musicais, investigadores sociais e nómadas transglobais, a banda percorre com uma sonoridade imune a etiquetas sonoras a vastidão da condição humana e a complexidade mediática e fracturante de questões que inquietam o mundo e se abatem principalmente sobre a Europa: a crise dos refugiados e a falência do projecto europeu.  Num contexto em que cada vez mais as fronteiras se esbatem, os movimentos transglobais se acentuam e proporcionam novas geografias humanas, as construções sonoras dos Oswaldovi aparecem destiladas numa diversidade de influências, imprimidas especialmente no último disco da banda – Songs About Persecution -, aquele que vieram trazer a Lisboa. 

A globalização permite nesta colecção de canções, em particular, uma fusão de géneros de identidade definida e uma mescla de referências que em outros tempos, e fora da era da comunicação e da tecnologia, teria sido difícil de completar com tamanha fluidez. O que vale o conceito de país, nação ou fronteira à luz do ser humano? Para os Oswaldovi, muito pouco.