O som e a palavra andam desde 2010 lado a lado em todas as edições de Kristin Hersh, uma das escritoras de canções mais absorventes e enigmáticas que as últimas três décadas viram nascer e crescer. Kristin, seja através dos Throwing Muses – que já estão a gravar um novo disco -, na carreira a solo ou ainda nos 50ft Wave, é um complexo segredo que ela própria faz questão de manter longe da compreensão e dos caminhos mais visíveis do mundo lá fora. Uma abordagem essencialmente DYI, mas sempre de forma literalmente literária, refinada, intelectualmente avançadíssima e emocionalmente desarmante. Uma abordagem que a fez seguir um caminho editorial onde as mais recentes obras – tanto Wyatt At The Coyote Palace de 2016, como Crooked de 2010 e o disco de Throwing Muses de 2013, Purgatory/Paradise –, viram-se lançadas de forma complementar tanto em disco como em livro.

Wyatt At The Coyote Palace saiu em Novembro passado e apesar do pouco reflexo na imprensa especializada, claramente auto-imposto e vítima feliz do seu posicionamento 100% independente, é uma obra-prima de Hersh, mais uma obra-prima de uma mulher que se reinventa na sua própria evolução mas sem deixar cair nem um grão de trigo fora do moinho que vai moendo e formando a matéria prima das suas canções de excelência. Um imaginário que é só seu e que bebendo na folk tradicional, no rock alternativo, no surreal e no concretamente irreal, no folclore nativo norte-americano e até em contos infantis – mais ou menos assustadores e dementes –, fermenta disco após disco a criação de uma lenda.

I’m in a different world of songwriting and music-making. So I keep my head down and smile and try to stay focused on what I believe music can do: make ugly beautiful and never be pretty. Nature helps keep me focused on the real. Music can be incredible, crazy and gorgeous, too, but only if you know its potential to shake you down to your spine.

O disco de 2016 recebe agora um segundo vídeo que segue de perto o imaginário campestre e infantil que inspirou e pairou, em boa parte, sobre toda a gravação do disco. O fascínio de Wyatt – filho de Kristin Hersh -, com um edifício de apartamentos abandonados que era visitado frequentemente por coiotes, foi avassalador de repente … e de repente acabou, de um momento para o outro. O mundo mágico, solitário e enigmático da mente de uma criança é filmado agora em “Bright” pela californiana Béatricé Sisul. Hersh reflecte sobre o vídeo da seguinte forma em conversa com a Stereo Embers:

“The Bright” video was made by LA film editor, Béatricé Sisul, an amazingly focused artist. It’s very beautiful, textural and gutsy, which is really the only place to go with a song like that. This song could be too sad unless you reflected its anthemic nature visually and Béatricé knows to go for the sweet behind the harsh. ‘There’s no tomorrow’ is a tough refrain unless you hear its inherent hope. I am ill-suited to events where people want to hear what they’ve heard a thousand times before.

Anteriormente, Kristin tinha já lançado um vídeo para Wyatt At the Coyote Palace. “Soma Gone Slapstick” abriu caminho para a edição do 10º disco de Hersh e pode ser revisitado já de seguida.