Toda história tem um começo, meio e um fim. Não necessariamente um fim drástico ou feliz mas tudo se pode complicar com as doses erradas de cuidado e, quando você menos espera, se vê dentro de um filme de David Lynch, tentando preencher os espaços vazios com fragmentos que lhe são jogados. E aí? Aí você se vê obrigado a buscar soluções no dia a dia. E quando limitamos a rotina a uma selva de pedra, entendemos que viver em uma grande metrópole se torna uma experiência desesperadora e, ao mesmo tempo, encantadora. Quando nos deparamos com artistas que se preocupam com esses aspectos, transformando a cidade no seu personagem principal, percebemos que somos um organismo vivo, ocupando os mesmos espaços.

Cícero, criativamente inquieto e ao mesmo tempo um arquiteto sistemático, gosta de brincar com as distorções, com as palavras e a rotina numa discografia sólida, iniciada em 2011. O pontapé inicial da sua “trilogia” foi com o elogiado Canções de Apartamento, beirando um som mais acústico e artesanal que passou, de seguida, pelas experimentações de um intimismo mais calmo em Sábado (2013) e alcançou as ambientações eletrônicas e melódicas nas ensolaradas canções de A Praia (2015). E quem o vê ao longo desses sete anos percebe atentamente o seu amadurecimento como cantor e compositor na hora de brincar com outros ritmos e sonoridades, ao ser mais expansivo na composição e em versos e vozes que sustentam sua própria poesia numa preciosa conexão que vemos em Cícero & Albatroz (2017). É aqui que se entende a sua decisão de começar uma nova história. Se antes estávamos acostumados com o “eu” no centro – para quem observa e dialoga com o mundo à sua volta -, hoje vemos um senso “coletivo” mais aberto e natural das coisas quando pensamos que a obra foi concebida em grupo.

Nesta missão, a Tracker Magazine se encontrou com Cícero para um papo despretensioso sobre a nova fase na carreira com a banda, a sociedade, a política e a posição da mulher no mundo da música. Tudo isso, horas antes do show da turnê do seu quarto disco de inéditas em parceria com a banda Albatroz – coletivo formado por músicos das bandas Baleia e Ventre –, a 07 de Abril, no Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiro, em São Paulo.

Desde o lançamento de Canções de Apartamento que houve um amadurecimento como cantor e compositor. Nesse novo disco, Cícero & Albatroz, você dá ênfase em “A Cidade”, porém, continua trabalhando as mesmas temáticas, só que sem o “eu” no centro.

É. Como é um disco de banda, a ideia das músicas é que elas falem um pouco por todo mundo também. Você quer que, de certa forma, eles [os elementos da banda] sejam representados. Então, você tenta falar o denominador comum daquele grupo em relação ao que você sente pelo indivíduo. Nos primeiros discos, eu gravava em casa tudo muito sozinho: as temáticas, os arranjos, tudo girava em torno de mim mesmo, da minha vida. E com a estrada, você vai pra outros estados, conhece outras realidades, outras verdades e outras pessoas, e você começa a querer falar com elas também. A banda acaba sendo um mecanismo para isso, abre um espaço pra esses aspectos, pra essas coisas pelas quais me interesso e não só as minhas próprias questões também.

Nesse disco percebemos que a questão “íntima” está bem mais desprendida do que nos anteriores, principalmente em Canções de Apartamento, em que você mais trabalhou as questões de relacionamentos, sejam eles mal resolvidos ou que estão passando por um processo de ressignificação, e nos outros discos você foi se desprendendo aos poucos.

De certa forma, tem um pouco a ver com a lógica dos discos. ‘Canções de Apartamento’, enfim, é de apartamento, ‘Sábado’ já se trata de uns aspectos urbanos, ‘A Praia’ já é uma coisa mais aberta ainda… Os primeiros discos são muito das minhas relações com as coisas. E o ‘Albatroz’, é como se fosse mais aberto, fala de mim e também da cidade e das coisas que não têm a ver necessariamente comigo, eu diria que é mais das coisas. Sabe, nele tem uma música que fala da minha relação, com uma pessoa, com uma história ou com um momento. Só que é muito mais, como se fosse uma crônica de um ambiente externo na minha cabeça. Nos primeiros discos era muito da minha cabeça pra dentro, as coisas que eu pensava, dos meus relacionamentos que eu tenha tido e do que estava tendo. E nesse disco isso ocupa um espaço um pouco menor.

Neste caso, na temática de “A Cidade”, você narra o que vê, presenciando histórias.

De um ponto de vista, é como se fosse uma fotografia. Não estou falando das minhas questões, não estou falando das minhas coisas, eu fala de uma coisa do meu ponto de vista no caso do ‘Albatroz’, algo que todos nós compartilhamos em termos de opinião de banda sobre isso, sobre a cidade… É basicamente sobre a cidade, esse disco é bem focado nisso, tanto que o primeiro single é “A Cidade”. Também tem músicas mais emocionais, mais intimistas, mas não é tônica do disco em si.

Cícero & Albatroz soundcheck no Teatro Paulo Autran, São Paulo

Cícero & Albatroz: soundcheck no Teatro Paulo Autran, São Paulo

Então, digamos que seria mais uma crítica social.

É. Se você for ver a natureza mesmo da palavra crítica, no sentido de observação, um senso crítico a respeito, acho que é isso. Não é uma crítica necessariamente a um ataque ou uma reprovação em relação às coisas. Eu não tento levantar juízo de valor, falar se isso está certo, se está errado, eu tento mais ou menos fazer como se fosse uma fotografia mesmo, com todos os aspectos que eu vejo, só que sem o juízo de valor.

Neste caso, cabe ao ouvinte a sua interpretação pessoal naquele momento em si.

Eu não tento dar para as pessoas uma opinião a respeito disso. Sabe, é o que tento fazer desde os primeiros discos, só que focado em relacionamentos. Eu tento nunca apontar o dedo pra pessoa e falar que ela está errada, que ela foi a pessoa errada, ou que eu fui a pessoa errada. Eu tento dizer o que é aquela cena, de você sentar e tomar um café com uma pessoa que você tem um relacionamento, sem saber se você oferece açúcar ou adoçante, ou se perdeu intimidade, falo a cena em si e não se a pessoa tenha sido injusta ou mentirosa pra você.

O clipe para “A Cidade” passa a sensação de uma marcha fúnebre… um samba torto. E você aparece deitado na rua, as pessoas estão em sua volta olhando, discutindo soluções, só que não fazem nada, apenas assistem, discutem o espetáculo e esperam acontecer. Quando a ambulância chega e te leva embora, elas continuam assistindo e vai se dispersando. Talvez seja isso que esteja acontecendo no mundo e entre as pessoas, a falta de coletivismo e empatia. E é aí que entra a questão de crítica social, você consegue ver uma relação atual com a do Brasil?

Total. É porque, na verdade, tudo que envolve você, te afeta nas suas relações mais íntimas. Tipo, você está em casa mas está ouvindo o barulho lá de fora, está ouvindo o trânsito, mas está sob o mesmo sol, na mesma chuva, você está ocupando o mesmo espaço. Todas as questões, por mais individuais que elas sejam, têm o efeito do coletivo diretamente, só que esse efeito parece que hoje em dia, e pelo que tenho observado, tem gerado o aspecto negativo, as pessoas só se afetam pelos aspectos negativos das coisas. É isso, enfim, não tô dizendo que é uma coisa que dá pra se consertar, talvez seja da natureza humana, não sei. Não é uma coisa só do Brasil, é no mundo inteiro. Se pegarmos um pouco da história, são os momento e ciclos, a gente passou por isso e já resolveu. Parece que é geracional, parece que os nossos filhos terão os mesmo problemas dos nossos avós em algum lugar e vai mudando. E a questão sexual é algo que está evoluindo, eu sinto, mas a questão da desigualdade social, não vejo uma melhora significativa de uma vontade igualitária real. Sinto que a tendência é de combate, todo mundo em volta em combate. A cidade fala um pouco disso, de ser um troço repetitivo e caótico há muito tempo. Tipo um organismo funcionando em modo de falha.

Como é o seu processo de criação e composição para o disco? Você absorve informações a todo o momento, sejam de livros, filmes, escritores… Ele é feito por assimilação?

Assimilação [pausa]. As formas de compor, de fazer arranjos com as músicas são muitos fragmentados, como se fosse cactos. De certa forma, eu consumo muita cultura em pedaços. Acho que tenho mais livros que li até a metade ou quase final na vida do que livros que li completos. Por isso que me dei tão bem com a poesia,  porque a poesia não precisa acabar o livro pra acabar a poesia. Romances, os que comecei nunca terminei. É porque tenho défice de atenção, se eu tiver que levar três semanas pra ler um livro, na terceira semana já estou em outro lugar. E este disco pra mim tem muita sacada de fragmentos, tem uma música que fala da rua deserta, de um beco e a outra que fala de uma onda. Não é uma história que você consegue entender que há um começo, ela passa pelo meio e acaba pelo fim. Como se fossem fragmentos de uma cidade quando você olha e meio que identifica que tenha uma cidade. Um filme com a estética de David Lynch. Como se tudo fosse meio absurdo, mas é real. Sacou.

Cícero & Albatroz soundcheck no Teatro Paulo Autran, São Paulo

Cícero & Albatroz: soundcheck no Teatro Paulo Autran, São Paulo

Você tem acompanhado o desempenho das mulheres no mundo da música, os espaços que elas vêm conquistando cada vez mais?

Sempre acompanhei as mulheres no meio musical com a mesma importância dos homens, pra mim. Bandas que eu mais ouvi de rock foram os Pixies, depois os The Breeders. A minha informação musical desde criança incluía mulheres com muita importância, a Bethânia, Gal. E hoje em dia, pelo que eu vejo, as mulheres estão ocupando os espaços em vez de reivindicar esses espaços, sabe. A mulher não tem que reivindicar o espaço, pelo contrário, ela tem que chegar lá e pegar porque o espaço é dela, seja na música, na política, em qualquer lugar! Essa autoconfiança que vejo nas relações das mulheres de agora é um sinal claro de evolução do pós-feminismo. O feminismo como se fosse uma postura necessária, só que depois ela ocupa o espaço que é dela com serenidade, e já está chegando nessa fase interiormente, porque exteriormente a gente está combativo, a sociedade está se matando porque é de esquerda, de direita, porque é homem, é mulher, porque é branco, negro, porque é cristão, não é cristão, está uma guerra. Mas eu vejo que a evolução feminista está mais eficiente, porque ela está ocupando. A presidente do supremo tribunal federal é uma mulher. Elas estão ocupando os espaços, só que eu ainda acho que tem uma coisa de guerra no homem que atrapalha tudo isso, sabe. Eu acho que a guerra é muita mais masculina do que feminina, eu acho que é a natureza do homem em si.

E das novas gerações o que você tem ouvido?

Cara, tem muita gente que ouço. Eu toquei num festival agora, duas semanas atrás no Rio, com a Carne Doce, a Letrux – toquei com a Letícia já na época da Letuce há dez anos atrás, quase. E tem outros artistas da minha geração, tem a Ana Frango Elétrico que lançou um disco agora aqui no Rio de Janeiro.

E o mercado?

Agora a questão, do ponto de vista de mercado, é que todo mundo está fazendo e está muito difícil das pessoas tomarem conhecimento do que está acontecendo, é muita coisa ao mesmo tempo. Todo dia sai disco novo, então, se esse disco que você ouviu hoje não te agradou de primeira, dificilmente você vai ouvi-lo mais vezes pra ver se gosta. Já lançou um outro, as músicas estão com esse compromisso de te agradar logo primeira.

Cícero está começando um digressão por Portugal no dia 15 de Junho que passa por cinco cidades. O circuito completo de concertos, aqui em baixo.

15 de Junho: Festival Rock Nordeste, Vila Real
20 de Junho: Cineteatro Capitólio, Lisboa
21 de Junho: Centro Cultural de Alcains
22 de Junho: Teatro das Figuras, Faro
23 de Junho: Cais Criativo Costa Nova, Aveiro