A Califórnia vive aqui. Nesta guitarra, neste baixo, nesta bateria… todos os elementos se unem na junção de um indie-pop surf psych rock que faz sonhar com uma época mais jovial e mais soalheira. Nas cordas dos Sugar Candy Mountain, todos os intervenientes estão numa praia qualquer, perante um pôr-do-sol e com um refresco na mão. A não ser que seja de noite, e na noite de 05 de Abril foi a vez de se apresentarem debaixo da luz rosa do palco do Maus Hábitos, no Porto, e das suas influências se sentirem omnipresentes e lado a lado com eles em palco. Brian Wilson, Os Mutantes e os Flaming Lips observam-nos, com um sorriso estampado na cara, a cada momento, a cada canção. Os californianos sabem bem como se movimentarem de forma descontraída e como criar uma linha vibracional idêntica entre todos.

Principalmente focados nas novas músicas, a banda cumprimentou o espaço portuense com praticamente todas as faixas do novo disco, que em nada se assemelham a uma invocação demoníaca, mas sim celestial. Tentaram, talvez, relembrar a fase angelical do diabo e a sua origem, já que as músicas do mais recente longa-duração dos Sugar Candy Mountain só nos lembram a forma como deveríamos levar a vida de forma leviana, sem pressas e sempre sob o efeito de uma viagem psicadélica sonora. Ao fundo, um novo som: os sintetizadores chegaram no segundo e mais recente álbum 666, editado em Julho de 2016.

Mantendo a sua relação próxima com o público, Ash Reiter pedia a sua proximidade, combatendo a sua timidez. Partiriam para uma parte do concerto mais calorosa, em que os espectadores estariam mais livres de constrições. O quarteto conseguiu assim transmitir o ambiente aconchegante das suas canções e transportou-nos para a sua terra natal com estas belas rendez vous à la Beach Boys com uma pitada de Beach House, onde nos sentiríamos sentados na areia e quase a ouvir o mar no horizonte.

O equilíbrio entre as vozes de Ash Reitner e Will Halsey auxiliavam as corpulentas melodias sobre uma consciencialização mais pertinente da vida e do que é viver. Tanto em “Changes” como em “Being”, uma frase recorrente: “Tudo em que tocas, mudas. Tudo o que mudas, muda-te também.” Da autora Octavia E. Butler, a citação é tão urgente ao vivo como gravada em estúdio pelos californianos. Conseguimos entender como estas palavras se moldam em conselhos quando nos são ditas com o toque sensível da vocalista.

One more”, ouviu-se entre os presentes quando a banda ameaçava terminar o concerto, mas os Sugar Candy Mountain responderam de forma certeira. Se já achávamos que os Air cumpriam o seu papel dreamy em “Playground Love”, os Candy Mountain acabaram a sua actuação com uma redenção mais densa do sucesso dos franceses. O espaço ecoou o refrão tão conhecido pelos presentes e deixaram-se levar pela atmosfera quimérica ali criada. Não só um álbum magnífico, como um concerto brilhante.

Sugar Candy Mountain @ Maus Hábitos

Sugar Candy Mountain @ Maus Hábitos