Alicerçado numa das vozes mais fantasticamente peculiares, poderosas e simultaneamente frágeis que têm secretamente pingado por entre as tubagens da música alternativa, o projecto Xiu Xiu vem da Califórnia para dar ao mundo os resultados da mente criativa de Jamie Stewart, cantautor maioritariamente encarregue de liderar a banda e único membro constante da sua formação. Desde os meandros de 2001 que o percurso de pesquisa se tem feito de forma prolífera e variada, quer em tonalidades, quer em desafio.

Passando pelas linguagens mais universais como o post-punk ou os namoros com a música tradicional asiática, a identidade dos Xiu Xiu – lê-se chuchu, como o legume -, está em grande parte no contacto com a sua metodologia irreverente e caótica que assenta delicadamente entre a identidade pessoal de Stewart e a sua forma peculiar de expressar emoção, sentimento e neurose. A textura autêntica dos seus temas e da sua voz encontra assim um mundo fictício que se faz, por um lado, de uma experimentação transfronteiriça de paletas sónicas e metodologias e, por outro, em narrativas cheias de fatalidade, mistério e ambiguidade. É a combinação das duas que dá o extremamente intrincado relevo do grupo, que em tempos pode ser tão divisivo como universalmente irresistível.

Como o 13º disco em 15 anos FORGET é, certamente, um ponto de situação de tudo aquilo que a bagagem Xiu Xiu foi enchendo nas suas viagens. Devaneio glam, rock lo-fi morno e confortável, psicadelismo transcendental, namoriscos com a cultura de clube e a confissão lírica desconcertant,e juntam-se todos num disco que se equilibra virtuosamente entre a vontade de sair da caixa e de se puxar sonicamente para o indefinido, com uma identidade intimamente focada e canalizada para um conjunto de peças bem estruturadas a viver com canções que são belos hinos. Há aqui muito espaço, sem dúvida, para uma pessoa se perder na estranheza e no desafio: a faixa de abertura, “The Call”, por exemplo, começa no centro de uma cidade cosmopolita, com o seu ruído abrasivo em estilo no wave a misturar-se com a adrenalina da batida e do soundsystem num registo que coloca Stewart a ecoar Mykki Blanco antes de voltar à sua pele de crooner gótico e de novo emergir na agressividade para fazer uma abertura mutante que funciona como o mais eficaz número de estreia.

Xiu Xiu Forget

Daqui, FORGET vai-se fazendo de desencontros e mistelas, dando espaço para o conforto e para a queda subsequente do chão. A batida grave e densa do hip-hop e do house revelam-se como um dos protagonistas regulares ao lado do dramático vibrato vocal que sabe evoluir para um belo grito quando é necessário, assegurando em muitos casos a construção de canções coerentes e cheias de garra e textura que mais ainda vivem graças a um belíssimo tratamento estético que afunila estas canções num túnel de luzes eterno e hipnotista. O post-punk de “Wondering” é tão imediato como o melhor dos charts dos 80’s, mas depois é o estimulante uso das percussões adicionais, os sons híper detalhados dos teclados e a linda sopa de delays e reverbs que nos leva numa viagem ao som de uma pop transversal e sempre sonicamente interessante.

Há sempre tempo para pegar na guitarra e trabalhar a canção e FORGET assume-se como o álbum que nos entrega “Get Up”, um dos graciosos tesouros de 2017 e uma aventura simples, milagrosamente executada com as mais originais escolhas de ornamentos instrumentais, aquelas que acrescentam palavras à letra e já estão a construir o seu próprio videoclip neste lindo conto de exigências e expectativas e admirações.

A batuta vai-se movendo entre o agridoce comovente e o negrume que oscila de perverso a intensamente pesado e no seu todo, o novo capítulo de Xiu Xiu é um bonito e atraente marco num 2017 que ainda vai jovem. A capacidade de operar em moldes e estruturas simples que se provam as mais eficazes é algo que o grupo domina, e combinando assim a sua vontade de se puxar para reinos mais curiosos e trazer interessantes propostas de sons e estéticas de diferentes anos e décadas garantem um cunho de viagem exploratória e caleidoscópica que se pinta com belos tesouros entre as suas diferentes paragens de serviço.

É também um disco poderoso,sem dúvida divertido, mas intenso nos seus temas de insegurança, identidade e psicologia, e por vezes abrasivo na sua abordagem, como indica a interessantíssima “Faith, Torn Apart”, uma construção enraizada em instrumentação tradicional que rapidamente evolui para uma chuva percussiva minimalista que serve como cama a uma longa e penetrante secção de spoken word. Já experiente em como agarrar e temperar os mais variados ingredientes, a identidade Xiu Xiu revela-se num conciso e concentrado disco para ser ouvido com atenção e onde a variedade recompensa para se encontrar algo que pessoalmente possa arrepiar a cada um de nós.