Dog Bite - Tranquilizers
50%Overall Score

Devíamos estar algures nos primeiros meses de 1990. 15 anos, uma franja comprida para a frente dos olhos, roupa preta muita, se não toda mesmo. Era uma época bonita apesar da negritude das roupas de praticamente toda a gente. Os The Cure, os Depeche Mode e os The Smiths reinavam nos walkmans e nas festas da escola. Um dia chega-se a casa e lá está ele, o leitor de CDs. O pai tinha feito uma surpresa e estávamos na vanguarda da coisa. Woooooo!!!! Pequeno detalhe, não havia discos para por aquilo a tocar. Pede-se uns trocos ao padrinho e aos pais e no fim-de-semana vai-se à procura de CDs.

All About Eve Scarlett And Other Stories para a veia mais gótica, o primeiro dos Inspiral Carpets Life para a veia Madchester, e de repente um disco fininho de capa prateada vem de encontro aos meus olhos. O nome não me era estranho, era aquela banda da gaja boa de cabelo vermelho e lábios mais vermelhos ainda que tinha visto no Melody Maker ou no New Musical Express… como era mesmo o nome dela? Miki, era isso Miki Berenyi e a banda eram os Lush e tornavam-se naquela altura numa das minhas principais referências sonoras. Bom, vamos arriscar. O disco chamava-se Scar e era o primeiro mini-álbum da banda. Uma porta gigantesca de entrada para o universo psicadélico do shoegaze e do dream-pop. Em pouco tempo as cassetes no walkman já tinham um pouco mais de cor. Lia-se então nas lombadas nomes como My Bloody Valentine, Cocteau Twins, Swervedriver e Spacemen 3. Passado poucos meses já a roupa era um pouco menos preta e havia camisas às flores.

Mais ou menos o mesmo se deve ter passado com os Dog Bite e com Phil Jones, mais conhecido como colaborador de Ernest Green nos Washed Out. Mas não vamos remeter este disco a uma simples comparação com a chill wave em tons de sépia e pores-do-sol californianos. A realidade de Tranquilizers passa, sem dúvida, por essa viagem numa máquina do tempo de tons dourados, mas pára para um copo com os ícones da década de 80/90 que tragam um selo 4AD agarrado à camisola.

Segundo Phil Jones, Tranquilizers foi inspirado pelos grandes nomes da soul music e do r&b como Otis Redding ou Isaac Hayes, mas o facto é que vamos na terceira faixa e já por cá passaram os Cocteau Twins, This Mortal Coil, His Name Is Alive e efectivamente as Lush e os Spaceman 3, e até ao fim do disco as referências repetem-se, entrando também nas tais praias californianas e espaços com cheirinhos de Toro Y Moi ou Neon Indian. Longe de ser um mau disco com más canções, é apenas um disco ainda demasiado carregado de tiques e toques a isto e aquilo sem nunca descolar para uma possível sonoridade mais personalizada, pois existe sem qualquer dúvida algo mais no mundo de Dog Bite.

Ao segundo disco, Phil consegue pelo menos uma confirmação. Entrar nos campos do dream e da shoegaze é um movimento arriscado e tarefa inglória para a grande parte. No que se esperava um processo evolutivo de Velvet Changes, o primeiro longa duração saído apenas no ano passado; Tranquilizers funciona mais como um lado B do anterior. Como se fosse um longo delírio de LSD pop em duas partes ou uma sessão de outttakes.