29 de Junho de 2016. Praça do Martim Moniz, esplanada, três Graveolas – 50% da banda -, estavam presentes para bons dedos de conversa. A Tracker Magazine convidou Bruno de Oliveira (baixo e vocais), José Luís Braga (voz, guitarra, cavaco) e Luíz Gabriel Lopes (voz, guitarra), para uma tarde ao ar livre, onde pudemos reflectir sobre os 10 anos de actividade do grupo, dentro e fora do Brasil.

Ô borboleta, vê se me arranja esse vento que te faz, voar feito astronave

Ô astronave, vê se me arranja esse vento que te faz, voar feito borboleta – “Maquinário”

Graveola e o Lixo Polifônico, embora a segunda parte do nome esteja a ficar omissa, vieram tocar a Portugal +eça primeira vez em 2010 e, desde então, a paixão foi imediata e eterna. Cria-se uma legião de fãs fiéis por cada país que visitam, seja em palcos grandes ou pequenos, o que importa aqui mesmo é a alma, combustível saudável para o crescimento bonito dos seis integrantes enquanto grupo musical.

 

Graveola

A visita de agora a Portugal tinha, para além do amor que as digressões proporcionam, a função de distribuir em versão concerto ao vivo o último álbum, lançado em Junho, Camaleão Borboleta. A obra produzida pelo visionário Chico Neves, que já trabalhou com artistas como os Skank ou Los Hermanos, demonstrou ser imediatamente promissora e bela através do pacto artístico desta emblemática figura com os Graveola. Como uma pintura, as dez músicas espalham cor numa tela imensa, abençoada pelo dom da metamorfose e da versatilidade, dom esse que ainda resgata a camuflagem, a particularidade de o velho se tornar novo e de o novo ter mil faces e o disfarce como algo que só traz benefícios.

Pura alquimia de sons tão distintos que vão de África às Américas, passando por todas as dimensões do mundo humano, com as suas possibilidades que parecem infinitas, rico nas letras e nas notas musicais. Pela diversidade de instrumentos, uns tradicionais, outros do universo do jazz e outros ainda mais eruditos, os Graveola não conhecem limites para o alcance das suas composições.

Começámos, como não podia deixar de ser, por trazer à távola redonda a própria designação do grupo – Graveola. Questionámo-los quanto à razão para este nome, que já vem de algum tempo atrás, desde a criação da banda. E, mais mágico ainda, é perceber que ao mesmo tempo não significa nada, ou seja, não tem uma definição politicamente correcta, mas também tem a característica de poder ter múltiplos sentidos, múltiplas leituras. Este jogo de palavras, que tanto remete para o fruto ‘graviola’ (anona), também resgata as palavras grave e vitrola para um imaginário ainda mais complexo. Como nos disseram os três, a designação ainda hoje dá chatice, ainda hoje é tema de conversa, e, cremos nós, sê-lo-á sempre, picuinhas e curiosos que todos somos com o nome das coisas. Apesar de Lixo Polifônico fazer parte do baptismo oficial, a banda e os fãs tendem a não utilizar esse pedaço quando se referem ao domínio do grupo. Também estas duas palavras têm as suas razões de ser, mas, acima de tudo, podemos referir-nos ao encanto de reciclar eventuais lixos vários que por aí andam em polifonia, em constante diálogo emocional e musical.

Esclarecidas as dúvidas em relação aos nomes, soubemos também que a primeira estreia da banda fora do Brasil foi num festival em Bolonha, onde puderam dar a conhecer ao mundo, passo a passo, a sua riqueza musical. Em Portugal integraram parte do já extinto festival Ondajazz, e deram ainda concertos na associação Crew Hassan.

Como acontece com a maior parte das bandas, todas elas sofrem metamorfoses e evoluções constantes. Só assim podem continuar a existir e a crescer bem. Os Graveola funcionam como um laboratório, e, como tal, a sua marca, para conseguir sobreviver, tem de se actualizar constantemente, auscultar a sociedade, interrogando a própria identidade da música, a essência que reside nesse poder maravilhoso que é o da criação. E, neste sentido, ‘é um empreendimento maior que todos nós’, uma potência que une esses seis humanos a outros tantos milhares que os ouvem e seguem. O que importa, então, é o que permanece, o que se deixa de legado, a história da banda, cinco discos depois, tantos concertos passados. Essa é a alquimia mais profunda e o que pretendem, sempre, conseguir. Que ocorram mudanças sonoras é o mais natural e isso é de louvar. Nesta fase, acaba então por existir uma leitura da banda e uma linha própria que pode ser detectada de olhos fechados mas ouvidos bem abertos.

A banda, que não se considera ‘nem totalmente amadora nem super profissional’, pousando antes naquele limbo bem saudável de existência, com um público fiel e interessado a cada metamorfose, encontra também nesse companheirismo uma forma de sustento muito confortável. No interior da invenção musical urge o feitiço de renovar o que existe e de reinventar o que já foi inventado, ou ainda mesmo de procurar novos tons para novos sons. Muitas vezes há algo que ganha diferentes contornos quando tocado ao vivo, tendo outra força que a versão de estúdio não consegue captar ou preencher.

Graveola @ Renovar a Mouraria

Como de assuntos sérios também se fez a conversa, falámos da situação do Brasil na sua actualidade social e política, e de que forma isso poderia influenciar a produção musical. Os Graveola confirmaram ter um posicionamento específico, bem presente nas redes sociais, de acordo com a leitura que fazem do mundo. Claro que não é preciso ser panfletário para acolher uma posição. E, como bem se sabe, existem causas novas a cada semana. A banda consegue ser política sem ser ‘só’ política e sem ser partidária, mas antes expressamente atenta às questões de debate mais acesas e mais pertinentes. No Brasil fala-se muito da legalização da maconha (marijuana), do império dos média e da internet ou da protecção e defesa do património e história dos índios, por exemplo, sendo que vivemos numa época muito acesa no que diz respeito a controvérsias. Os Graveola são anti-golpe, e essa sua manifestação contra o governo acaba por ser transparente. Recordemos por exemplo a faixa de protesto à Copa, no ano passado.

Posto isto, e ainda que não exista uma música de protesto oficial, os seis têm reinado numa arena psicadélica que dá sempre espaço a muitas interpretações. Sem gavetas, este local completo e arejado, permite um colectivo artístico muito produtivo. A arte não é pragmática. Dessa forma, não podemos jamais calcular o dano. O coração e a mente sincera é que têm, de facto, importância. A banda falou-nos dessa vibração, dessa frequência que nasce de um acto sensível, de composição e actuação, e que consegue um alcance bem expressivo.

E para bem da composição, trouxemos à conversa a questão da divisão autoral. Os três fazem corresponder a Luíza Brina um enorme contributo musical, uma enorme sabedoria e conhecimento do panorama da música da América Latina. Assim sendo, os Graveola conseguem a obra total, a bagagem total. A par de várias bandas e vários contributos, contamos ainda com o gosto pessoal de cada integrante. Essas influências são a riqueza maior para o arsenal do grupo. Bruno de Oliveira teve, por sua vez, uma abordagem à música erudita e ao jazz, o que, sendo também a base da composição, em tudo enriquece a banda. O ambiente musical é munido de um espólio abastado, que permite estar mais à vontade na construção desse imaginário. A par da questão do grupo e respectivas escolhas, o estado de Minas Gerais tem ele mesmo um panorama de música muito próprio. No entanto, apesar de existir muita actividade, não existe projecção. É outra dificuldade que o Brasil encontra no cenário musical dos seus cidadãos.

Em voz própria, os Graveola inserem-se no interior do estilo da canção e manuseiam a canção popular do Brasil. Neste ponto, a Tracker Magazine quis saber que artistas e grupos musicais portugueses gostavam eles de acompanhar. Chegaram-nos os mais emblemáticos cantautores do país, destacados sobretudo na música de intervenção, como Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco e vozes igualmente consagradas da actualidade nacional, como JP Simões ou B. Fachada. E como de rótulos se vão criando dificuldades de leitura, tagarelou-se sobre a música popular brasileira (MPB) como sendo um abismo quase infinito e impossível de dissecar. Há um hiato na criação musical da América Latina, pois a maior parte dessas obras não chega sequer ao conhecimento do Brasil, e, quiçá, crença dos Graveola, o Brasil esteja a afastar-se mais e mais desse universo continental e não conheça nada da produção desses países que o rodeiam. A MPB, por ter ganho todo esse terreno e credibilidade, e sendo já tão imensa para se navegar, acabou, assim, por ofuscar as demais criações e correntes musicais.

Algumas críticas dizem que a banda se insere no mundo pós-tropicalista. O que é certo é que existe uma grande mistura, com inclinações também da música do Nordeste (Minas Gerais), ainda também uma matriz identitária, e face a toda essa enciclopédia de informação e cultura e ritmo, com destaque para as sonoridades afro-latinas, o Brasil, enquanto país independente, tem uma tradição recente, se compararmos, por exemplo, com histórias nacionais mais antigas.

“Talismã” é uma faixa de Camaleão Borboleta que conta com a participação de Samuel Rosa (da banda Skank). Estes encontros de músicos a níveis diferentes são uma aposta dos Graveola e devem ser acolhidos sempre que a banda o deseje. O processo criativo é outro tema a sobressair nesta nossa conversa. A criação é quase sempre individual, mas o arranjo, esse sim, já é colectivo. Não há nada, dizem-nos os três, como ir tocando, experimentando, juntando sons prováveis e improváveis, dando melodia à letra. Esse é, dizem-nos, um pacto de paternidade compartilhada. Um filho pródigo e maravilhoso que nasce de todas essas mãos e corações. E dessa forma dar novos arranjos às músicas do grupo torna-se uma probabilidade constante e o disco é sempre um meio que permite uma grande variabilidade.

Graveola

30 de Junho. Arraial sem Fronteiras na associação Renovar a Mouraria. Tudo a postos para os Graveola apresentarem as suas inéditas melodias, revelando a boa produção musical do Brasil. E, como a banda não tem um vocalista principal e individual, as várias vozes do pequeno palco e da plateia que íamos escutando encheram as paredes da Mouraria de orgulho e alegria. Com várias pessoas a cantar em simultâneo com as vozes do grupo, vimos nascer ali um baile animado e quente, cada um feliz à sua maneira, utilizando a boa energia em prol de uma união invejável. Foram bastantes os fãs que apareceram naquele cantinho lisboeta e que, em pleno clima de festa, se deleitaram com vários minutos plenos de música.

Um tesouro de Belo Horizonte para todo o mundo, com Bruno de Oliveira, José Luís Braga e Luiz Gabriel Lopes, Gabriel Bruce (percussão e vocais), Luiza Brina (voz, percussão e melódica) e Henrique Staino (teclado e saxofone), os seis apresentaram-se com camisas bem coloridas, tropicais, camufladas de flores belas e exóticas e ainda algumas aves da Amazónia. Um pedaço da Mouraria acolheu o Brasil inteiro e o contágio foi imediato. Em nome de causas sociais, ecológicas, políticas e em nome da própria poesia, cheia de artimanhas e cores fortes, os Graveola não sossegaram nem deixar o público quieto.

O grupo passou ainda pelo Roskilde Festival, na Dinamarca, e regressará a Portugal para o Festival do Intendente, em Lisboa, dia 16 deste mês, no Café au Lait, no Porto, dia 20 e no FMM, em Sines, dia 22.

Felizmente para todos, eles não sabem estar quietos.

Graveola

Com os álbuns Graveola e o Lixo Polifônico (2009), Um e Meio (2010), Eu preciso de um liquidificador (2011), Dois e Meio, Vozes Invisíveis (2014) e o fresco Camaleão Borboleta (2016), temos de dar lustro aos nossos ouvidos e deixar-nos embalar pelas cantigas deste grupo maravilhoso.

Setlist:

Arrocha
Talismã
Aurora
Esquadrão
Farwell
Costi
Vida sim
Índio Maracanã
Back in Bahia
Tempero Sagrado
Sem Sentido
Lembrete
Maquinário
Babulina’s Trip
Desdenha