Em 1939, após dez anos passados na condição de expatriado, Henry Miller regressava aos Estados Unidos e laureava o mundo com The Air Conditioner Nightmare, uma odisseia-relato de três anos de roteiros desmapeados pelo país fora, fruto de um profundo desejo de explorar tudo aquilo que diferenciava a sua terra natal de todas as outras, ou seja, as raízes da natureza intrínseca de todo um conjunto de características inerentes à definição do conceito do que representa ser-se americano. Descobriu o que, quiçá, não estaria à espera; um vazio moral, espiritual, cultural e estético que mais tarde lhe esteve na génese da seguinte confissão: “nowhere else in the world is the divorce between man and nature so complete”.

Mais de 75 depois, Airick Woodhead, o mentor do projecto canadiano Doldrums, revivifica o título, embrulha-o numa roupagem electrónica desdobrada ao longo de 10 temas e tece-lhe novos destinos. Autor da única remistura destilada a partir de “Chase The Tear” dos Portishead em 2011, à qual cedeu estilhaços espaciais dos seus vocais contorcidos, e ainda praticamente desconhecido dos meandros musicais, Doldrums regressa agora com “Hotfoot”, o single de apresentação do seu segundo álbum com saída prevista para 6 de Abril via Sub Pop que, pela amostra, testifica-se um herdeiro à altura da obra homónima que o precedeu.

Submerso no universo electro-pop de Montreal de onde eclodiram nomes como Grimes (em cujo álbum de estreia participa), Majical Cloudz e Blue Hawaii, “Hootfot” apresenta Doldrums num conflito melodioso e sedutor que poderia muito bem ser uns The Prodigy ou uns Nine Inch Nails nos verdes anos do seu extenso e indelével percurso. Insinuando-se com ritmos encapsulados numa trepidação persistente e baixos vibrando num coro ininterrupto de rosnados vibratoriais, aplica-lhes, ao mesmo tempo, fórmulas de cariz punk, o que faz de Doldrums um projecto arquitectónico sonoro hipnótico e expansivo de fronteiras esbatidas e pouco delineadas. São 10 temas a não perder no início da Primavera.

rosana rocha sig