Douglas Dare brinca aos neo-clássicos e à folk solene em 'Milkteeth'
90%Overall Score

Dizia-se nestas páginas virtuais em 2017, aquando da estreia de Douglas Dare em Portugal, que o britânico era a luz nas sombras de histórias pessoais e desarmantes, que era um exorcista bem-sucedido que saltitava entre canções solenes e desalmadamente tristes como um menino seguro e sorridente. Dare andava então, nas rotas do planeta a mostrar Aforger, o segundo álbum de originais, e parecia que ainda lhe custava entender o que, na verdade lhe estava a acontecer. Porque havia tanta gente interessada em ouvir com tanta atenção e devoção os recados que deixava ao pai, as reflexões sobre a sua sexualidade abertamente homossexual, a sua assunção drag e as suas condicionantes, os seus desaires de amores? Não o sabia mas, agradecia com vénias de 3, 4, 5, 7 minutos de pianos e máquinas que não eram nem de céu, nem de inferno, mas um divertido purgatório que Dare ainda não permitia que queimasse como a idade adulta.

Em 2020, o músico faz questão de ainda manter os dentes de leite e continua desviantemente inocente a olhar para tudo o que é dor ou pesadelo de menino – crescido ou não -, com o espanto maravilhoso de uma criança. Milkteeth, terceiro álbum da carreira e na Erased Tapes, recorre pontualmente menos ao piano e à electrónica e Douglas Dare equilibra o seu neo-classicismo numa abordagem folk pouco denunciada, filha de uma visão muito pessoal da escrita de canções.

Solene como um quarto de brincar num palacete inglês do século XIX, Dare e Milkteeth devem ser presença essencial numa colecção de discos onde possam interagir com os de Nils Frahm, Peter Broderick, Ólafur Arnalds e Patrick Wolf.