Drew Price's Bermuda Triangle - Friends And Family
65%Overall Score

Do isolamento de um quarto em Birmingham, Alabama, ecoam sonoridades que sofrem de uma crise de identidade. A tarefa de encontrar um fio condutor que ligue as diferentes cambiantes musicais que nos chegam aos ouvidos, não se revela fácil. No entanto, é-nos dada também a opção de alargarmos as fronteiras estilísticas auto-impostas e simplesmente ouvir a música de um ponto de vista muito mais abrangente e liberto de amarras. E de repente, tudo pode soar diferente.

Drew Price é o autor deste desafio. Com apenas 23 anos e prestes a terminar uma licenciatura em psicologia social, ele explora as margens das definições de géneros com total liberdade, já que não abdica do seu método de criação solitário. O resultado é uma amálgama musical que dispara em vários sentidos, tantos e tão diversificados quanto os seus diferentes estados emocionais e influências lhe permitem. Assim, naquele que está a ser considerado o seu álbum oficial de estreia – após três outros que foi partilhando gratuitamente na internet desde 2008 – elementos de shoegaze, dream pop, rock, downbeat e até house convivem no mesmo espaço como se fosse a coisa mais natural do mundo, todos reportando, no entanto, a uma base comum de um certo psicadelismo experimental.

Friends And Family abre com a faixa que dá o nome ao álbum e que logo nos introduz àquilo que ele tem de mais forte: as canções pop arrebatadoras, caracterizadas por uma parede sonora de reverberação e guitarras distorcidas, em que a voz do próprio Drew Price se confunde com o todo e nos impele para ambientes idílicos de sonhos soalheiros em câmera lenta, onde a emoção é palavra de ordem. O mesmo tipo de sonoridade está presente em “Don’t Treat It All” e principalmente em “SSP._”, possivelmente a faixa mais forte do álbum e muito bem escolhido single de apresentação. “Something White”, “Dead Flower (Nothin’ Means Somethin’)” e “Thrill Me Softly” partem do mesmo princípio, mas despem-se de complexidade e de decibéis, remetendo-nos para ambientes mais tranquilos, à excepção da segunda metade da última, que fecha o álbum da melhor maneira num culminar de exaltação, uma espécie de “agora ou nunca” de guitarras e vozes processadas e batida acelerada que acaba por reunir num minuto e meio o que mais próximo estará de uma identidade global representativa do todo, se tal for possível encontrar em Friends And Family.

Intercaladas com as canções maiores (também em duração) encontramos, porém, momentos de cariz assumidamente mais electrónico, que revelam a diversidade quase esquizofrénica da personalidade musical de Drew Price, que desde logo se assume como fã tanto de Lou Reed como de Beyoncé. Entre estes momentos, dois em particular – “LB.fam_*” e “Login*” (a originalidade bizarra da maior parte dos títulos acompanha a esquizofrenia) – destacam-se pela capacidade de aproximação à tal identidade global, em grande parte devido à presença da voz de Drew que, distorcida e processada, acaba por arrastar o sequenciador para o meio das guitarras e dos ambientes que melhor definem o álbum.

Tudo o resto para além destas 8 faixas é de uma relevância questionável num álbum que seria irrepreensível – mesmo que curto – se se tivesse ficado por aqui. Temas de programação house e pequenos interlúdios a lembrar jingles publicitários, não sendo propriamente maus, soam a meros esboços de qualquer ideia por concretizar e conferem ao álbum, se por um lado, a diversidade sonora que o caracteriza, por outro, também aquilo que o enfraquece. Não chegam, no entanto, para diminuir a níveis preocupantes um disco cativante que, no seu todo, traz-nos uma pop descomprometida e despreconceituosa, capaz de momentos absolutamente apaixonantes, principalmente tendo em conta que provém de uma única mente criativa que, na privacidade do seu quarto, se dedica simplesmente, segundo as suas próprias palavras, a servir de canal de transmissão de música vinda de outro lugar. Processo que inclusivamente, terá inspirado o seu nome artístico: “Às vezes sinto que não sou eu que estou a escrever as músicas. É como se elas já tivessem um destino marcado.”