Echaskech - Origin
70%Overall Score

Se deixássemos vir a nós toda a puerilidade que alguns (oh tantos) deixámos fugir, ora por necessidade maior vinda da urgência de lidar com uma realidade que obriga ao amadurecimento, ora porque sim, tudo se afiguraria tão mais simples como autêntico. Mas como aqui se cura sobre música e não sobre um romance de Paulo Coelho ou sites que nos permitam receber diariamente frases motivacionais para publicar no Facebook e obter quantos likes quanto amigos depressivos temos, passemos ao que interessa.

Os géneros musicais (ou as suas definições) multiplicam-se a um ritmo proporcional à estreiteza que cada um encerra. Já assisti a discussões em mesas de café (ah, os hipsters, não podemos viver com eles nem sem), sobre se Apparat seria ambient, house ou Moby com talento. Por ora, sem complicar, dizemos apenas que o disco Origin dos Echaskech é um tapete vermelho estendido à Primavera. Rasgando prados de um verde de ferir a vista. Porque nada nos impede, se imbuídos da tal puerilidade que nos concede uma liberdade que não a outra, gritada como quem pede uma esmola como último recurso contra a fome, de dar uma imagem bem mais ampla sobre um disco. Um segundo disco de uma dupla de rapazolas que se conheceu na escola e agora são amigos. Simples, não é? Também o trabalho dos moços. Origin é coisa para se ouvir no carro a caminho de um lugar qualquer que nos permita atravessar as planícies alentejanas por esta altura. Há mantos de flores a cobrir montados, ora amarelas, ora púrpuras. Quando entramos numa nacional qualquer, voltamos à faixa 1, “Scanners”, baixamos um pouco o volume e abrimos as janelas, para que o canto dos pássaros em urgência nidificadora se possa misturar. Fica bem. O tema “Voyager” é, pois, a contextualização de tudo isto, não fora das que mais “sai do baralho” para ir dar uma volta ali à banda sonora do filme Drive, numa cena qualquer em que o Ryan Goslin faz qualquer coisa que faz suspirar as meninas. O tema “Paper Scissors” também pressupõe a observação de belas paisagens, desde que sobrevoando-as. “Telomere”, “Colony” e “Anomie” são idas à praia com amigos, “Metic” e “Ash Fallen” são piqueniques em família, com baloiços de corda improvisados em árvores e sesta à sombra de um frondoso pinheiro-manso.

Se eu fosse os Echaskech, teria muito medo de comparações, que refeririam sempre Apparat, o Felt Mountain dos Goldfrapp e tudo o que está entre eles. Mas repito, Dom Hoare e Andy Gillham são dois amigos que se conheceram na escola, jogaram muito ZX Spectrum, ouviam Kraftwerk e frequentavam a rave scene londrina dos anos 80. Não têm medo de nada. E este é só o segundo álbum.