Há um longo silêncio no escuro apenas trespassado por um avião. O ruído da chegada de uma de tantas aeronaves que desenham rotas quase constantes no céu de Lisboa, disfarça-se na introdução musical que cumprimenta David Portner na entrada em palco. Avey Tare, o pseudónimo que usa na sua persona artística, sobe ao altar. Em nome do pai, do filho, do eucalipto e do espaço saturado onde se encontram as canções de um dos três lados do agora triângulo sagrado dos Animal Collective. Ou não, porque a certeza sobre a presença ou não de Deakin no colectivo norte-americano é tudo menos constante. Apesar de ser membro fundador da banda, aparece ocasionalmente como viajante surpresa, constando em apenas 6 dos 11 álbuns de originais editados pela banda, tendo sendo avistado pela última vez na selva digital dos Animal em 2012, quando uma Centipede Hz passou pela sua discografia.

Avey Tare lançou a 21 de Julho deste ano pela Domino, o segundo disco a solo de uma discografia confusa que se ramifica entre a banda e outras colaborações com os elementos dos Animal Collective, os Slasher Flicks com Angel Deradoorian, ex-Dirty Projectors, e Jeremy Hyman ex-Ponytail, e o disco em parceria com a ex-companheira e ex-Múm, Kría Brekkan. Eucalyptus é o disco em questão que David trouxe a Lisboa, a uma St. George’s Church lotada em que estava também Panda Bear do lado de cá, deixando no ar alguma esperança de se assistir a um casamento inesperado. A noite seria reservada, no entanto, à celebração de um disco de oxigenação da voz, vida e música do compositor nascido em Maryland e agora sedeado na Califórnia, local que serviu em parte de inspiração ao novo trabalho que não se exclui em nada à sua restante carreira. Um disco de experimentação, um disco onde o digital e o electrónico orgânico se encontram com linguagens acústicas, eléctricas e também exploratórias.

Mas a Lisboa, poucas folhas da árvore nativa da Austrália chegaram. “PJ” fundiu-se com “DR aw one for J” logo ao princípio da noite, e escorreu para “Ms. Secret“. A guitarra acústica ditava, nesta sequência inicial, a direcção e a base de onde Tare iria começar a trepar uma árvore emocional intensa e pessoal. “Selection Of A Place” veio mais tarde enrolar-se devagarinho numa manta de doçura – algo que seria constante ao longo da noite -, para se ir transmutando lentamente em algo que tanto conforta como sopra medos, dissonâncias e certezas de começar do zero. Um quase grito treme as palavras suddenly I wake up now num eco entre a reverbação natural da igreja e os efeitos cuspidos das máquinas de Avey, para ir desaguar no sussurro imperceptível de quem está a tocar no seu quarto, para si mesmo, para alguém ausente, como se não houvesse mais ninguém… e aqui também não. Este é aquele place to go and pray today, a place to pass away. “Selection of A Place” passa a palavra a “In Pieces” mas continua em plena análise lo-fi, em fase de fazer as pazes com o passado, denominador transversal a Eucalyptus. “When You Left Me” é o galho que se posiciona mais alto e cumpre o mesmo papel, no concerto e no disco, encerrando ambos.

Como nem só de eucalipto se alimenta uma noite, em vez de percorrer em profundidade o passado, Avey arrisca um alinhamento de construção. Em vez de recorrer a Down There – o disco de 2010 comummente aceite como o seu primeiro disco a solo -, ou a qualquer outro momento da sua discografia, excepção feita a “Man Of Oil” dos Animal Collective já quase no final do concerto, David Portner prefere percorrer caminhos quase virgens, criando na passagem por Lisboa um pequeno laboratório de experiências ao montar um alinhamento com tantas músicas novas como temas do disco que vinha promover. As leis foram feitas para serem quebradas, e ainda bem. Depois de algum trabalho de espionagem e jornalismo, encontram-se os títulos das novas músicas, que têm sido tocadas no decorrer da digressão e que farão ou não parte de um futuro registo: “Derriere In The Frosted Air”, “Ono Lemonade”, “The Aging Heart”, “Saturdays”, “Eyes on Eyes”,  “My Goal” e “Sew Happy”.

Porque em quase todos os sons, trabalhados entre a pequena mesinha das máquinas e as guitarras que Portner vai intercalando e soando durante a hora e pouco em que foi sacerdote, há um elemento constante. Uma noite com Tare, em especial num local de silêncios, fé e ecos como é a St. George’s Church, é uma noite de cumplicidade e proximidade. Com o divino, com o universo, com a clareza naturalista do planeta ou simplesmente com um homem-menino de boné na cabeça, tiques de pé nervoso e astronauta no peito. Com toda a certeza, de todos. A música de Avey é, em Eucalyptus, feita de camadas de tantas simplicidades nervosas, de movimentos de som, de paisagens mais ou menos cristalinas e interplanetárias, observadas enquanto deitados junto ao lago numa noite escura de Verão ou no coração de uma velha igreja numa velha cidade.

Avey Tare @ St. George Church, Lisboa by Vera Marmelo