Vamos por partes.

Parte 1

Em apenas oito anos, o Musicbox tornou-se uma das mais incontornáveis salas de concertos da capital. Uma cuidada escolha de cartazes, abarcando todos os géneros, a preços comportáveis. Era assim tão difícil intuir fórmula tão eficaz? Ou havia só falta de vontade? Aqui não. Não é só o Musicbox que está de parabéns. É Lisboa inteira. Foi isso que os Efterklang, apenas dois anos mais velhos que esta sala, vieram fazer. Integrar as celebrações do Oitavo Aniversário do Musicbox. Não foram os únicos. Mas como muitos dos outros que por aqui passaram pelas mesmas razões, deram um concerto único.

Parte 2

Veio também Coclea, o nome pelo qual é agora conhecido o ex-guitarrista dos Gala Drop, cujo projecto a solo trouxe à sala um considerável número de seguidores que se deixaram levar, a gosto, aplausos e danças possíveis, por este one man show movido a uma guitarra, mesa de mistura e rack de loops. É a ambient nacional a dar de si e muita gente para receber a oferta. E por muito que o espectáculo tenha começado com algum atraso, ficou a sensação que Coclea poderia ter ido mais longe nesta tarefa de estabelecer o ambiente, aquecer a casa, entreter as hostes. Não cremos que isto vá ficar por aqui, Coclea… E lá estaremos.

Parte 3

Os Efterklang são a banda ideal para se descobrir numa noite de copos. Na medida em que mesmo os que os conhecem perfeitamente, ou principalmente esses, sabem de forma igualmente perfeita que não poderão esperar dos Efterklang algo de parecido com o que viram ou ouviram até ali. A Banda em Perpétua Mutação já nos habituou a esta imagem de crisálida que vamos lendo por aí, para a grande borboleta (ou outro insecto qualquer, desde que belo e surpreendente) surgir no próximo concerto. Foi o que aconteceu desta feita. Mas este concerto tem algumas particularidades que poderão fazer dele algo de histórico. E não estamos a falar da execução. A essa já lá vamos. É que 2014 é um ano de Fins Escandinavos que ainda não sabemos se serão os Inícios de outro algo. Os suecos The Knife anunciaram o seu fim. Os noruegueses Royksopp lançam um disco chamado O Fim Inevitável que quer dizer isso mesmo. No dia 28 de Fevereiro os dinamarqueses Efterklang deram um espectáculo no Alsion Concert Hall em Sønderborg. Convidaram a Sønderjyllands Symfoniorkester (Filarmónica da Dinamarca do Sul), Sønderjysk Pigekor (Coro Feminino do Sul da Dinamarca), o maestro Hans Ek, o antigo membro Peter Broderick (que também deu um belíssimo concerto no Musicbox cerca de um mês antes deste de que falaremos já de seguida), Tatu Rönkkö e mais uma mão cheia de amigos. Vincent Moon, precursor da La Blogothèque e o mesmo realizador do fantástico An Island, ficaria a cargo da filmagem. O que saiu dali foi o histórico e majestoso, grandioso e incontornável “The Last Concert”, muito mais que um concerto ou um documentário, um lugar onde se quer estar. Que, como somos MUITO amigos, pode ser visto AQUI.

Parte 4

É por aquelas acima e aqueloutras quase lá no início do texto que quase ninguém ficou surpreendido com o anúncio, feito por Casper Clausen: “O cartaz diz Efterklang + Tatu Ronkko mas, na verdade, esta formação tem vindo a fazer muitas coisas desde o início do ano e somos os Liima, espero que gostem”. Eram 0h42 quando Rönkkö, o loiro que reconhecemos de “The Last Concert” (a dar um espectáculo de percussão em copos de vidro e pires de loiça e alumínio numa espécie de lobby de Centro Comercial), começa a dar um ar de sua graça. Incute à sonoridade original do Efterklang (o núcleo duro, Rasmus Stolberg – ora guitarra ora baixo – , Mads Brauer – sintetizadores, teclas e samplers – e o vocalista/teclista Clausen, continua intacto), as nórdicas paragens dos múm, senão mesmo mais electrónica. Há momentos de industrial (“very trippy”, como o próprio Casper definiria), psicadelismo e minimalismo, apoteoses depois da placidez, explica-se aos espectadores que tudo isto começou na Finlândia, de onde Tatu Rönkkö é originário (o Norte da Europa parece estar todo em Lisboa), declarações de amor à nossa cidade com uma sinceridade fora do habitual e necessidade de explicar que sabem muito bem o que se anda a passar: “Sabemos que as coisas não andam bem, mas gostamos muito de ver que de cada vez que cá vimos vocês continuam interessados, despertos e curiosos sobre coisas novas”, parabenizações ao Musicbox com agradecimentos ao Pedro, responsável pela maioria dos excelentes cartazes e com quem os Efterklang parecem ter uma relação bastante próxima. Com o público também. Porque a maioria consideraria isto que se ouve nesta noite uma música não muito fácil. Muitos dos momentos melódicos dos Efterklang passaram a ser de quase-experimentalismo com os Liima. Pois, esquecemo-nos de informar que tudo (ou quase) o que aqui se ouviu são reinterpretações de grandes clássicos. E não estão irreconhecíveis. Estão só refinados: “Looch”, “5 13”, “Russian”, “Woods”, “Double Dates”, “Outfalled”, “Weed”, “Between Spaces” e “Trains” constituíram uma setlist que, bem contada, dá nove temas e intui um concerto curtíssimo. Mas quaisquer matemáticas ou outras ciências levariam a um caminho que não é este. Aqui, manda o coração. E os Efterklang, seja lá qual for a sua denominação mais moderna, roubam-nos o nosso a cada vinda. Felizmente, não têm sido assim tão poucas. Dá para pedir de volta para a próxima. E ainda vamos a tempo. Vamos sempre a tempo.