Ao terceiro – e último – dia do Festival de Outono, as energias estavam apontadas para a descarga completa, num dia com algum pendor para o mundo electrónico. No entanto, não havia preparação possível para o alucinante espectáculo de Omar Souleyman. O músico sírio é, provavelmente, a maior exportação cultural da região neste momento e terá sido por uma boa margem o nome mais aguardado da noite. A sua música de dança é vibrante e eléctrica e vem disparada (alto e a bom som) de apenas dois teclados manejados pelo, suspeitamos nós, maior virtuoso africano das teclas. Omar é a grande estrela e tem o palco a seu encargo, embora acabe por ficar relegado a um papel quase decorativo: atira algumas interjeições encorajadoras (“yeeeey!”), bate umas palmas aqui e ali, de vez em quando lá atira um verso para complementar a música. Mas, no fundo, é a pinta que emana de turbante e óculos de sol que fazem o clique do espectáculo. Enquadrar a sua arte em algo que conheçamos é um exercício arriscado: vem à cabeça a folia popular de um Quim Barreiros, a energia sem fronteiras características da música de dança e a cacofonia ácida e caótica de uma estrutura de carrinhos de choque. E tudo isto não é necessariamente mau – na pior das hipóteses, talvez seja um gosto adquirido. Estamos plenamente convencidos que, nas nossas vidas, isto foi o mais perto que estivemos de uma rave clandestina na noite da região africana.

Depois, uma proposta diametralmente oposta. Os Crocodilo Criollo são um grupo multicultural, de cinco elementos, entre a vocalista mexicana, o trovador brasileiro e a restante banda portuguesa, e situam o seu espectáculo entre um concerto e um pequeno teatro. A abrir as hostilidades, uns estranhíssimos primeiros momentos onde escutámos imitações de alguns animais e um dos seus membros perscrutava fixamente o público, como se assim despertasse algum poder telequinético; depois, a banda lançou-se à sua música e conseguiu justificar aquele tão singular aparato inicial. Sobreveio o ritmo quente e acolhedor da música latina, inspiração e fonte de imaginário para a sua arte, localizado algures entre o Perú, o Brazil, Argentina e África. O violino e a guitarra tomavam conta das harmonias e as atenções dividiam-se depois entre as duas vozes principais: ainda referindo ao tema central do Festival, a poesia dos Crocodilo não poupou em referências à liberdade, à escravidão, à injustiça que marcou a história de vários povos; uma delas, de nome Maria Landó, “dedicada a todas as mulheres trabalhadoras do mundo”, foi particularmente mordaz. Não sabemos ao certo para onde vão a seguir, mas foi um simpático espectáculo, que deu a entender ser muito querido por todos os seus membros e acreditamos que a mensagem passou da melhor forma. Tudo lhes correu bem, a estes simpáticos aligátores.

Crocodilo Criollo @ Festival de Outono

Crocodilo Criollo @ Festival de Outono

As honras de fecho da Reitoria ficaram entregues aos Fandango, um grupo de apenas dois músicos, Luís Varatojo e Gabriel Gomes e que recupera (e pretende perpetuar) instrumentos afectos à música portuguesa. Mas há um catch: a direcção está estabelecida e é a música de dança (bastante) assumida, e quem os guia são o acordeão e da guitarra portuguesa. São estes que proporcionam a base da melodia que se ouve (e algumas foram bem conseguidas), enquanto que a batida electrónica é garantida através da informática; no entanto, chega-nos sem grande personalidade, e possivelmente a desvirtuar o que de bom foi feito – será talvez essa uma característica indissociável da estética onde querem chegar? Neste tipo de terrenos, a linha que separa o sucesso do passo em falso é infelizmente ténue e bastante matreira. Ainda assim, ressalva-se a criatividade de ambos, que aqui podem ter encontrado um nicho musicalmente interessante e passível de boas experimentações e queremos acompanhar os seus futuros trabalhos. De resto, e terminada mais uma edição do Festival de Outono – a noite continuaria, mais uma vez, no Bar Académico, uma oferta que o cansaço nos aconselhou a declinar -, da cabeça não mais nos saiu a ideia de uma possível colaboração entre os Fandango e o virtuoso africano dos teclados, com Souleyman encarregue dos fados – que parelha dos demónios!

Com isto, terminou o Festival de Outono, cuja ambição seria comemorar mais uma entrada de ano lectivo. Ao Festival, compareceu apenas uma pequena parte da comunidade académica, o que, embora se possa ambicionar melhorar no futuro, jamais pode demover a organização. Fica a aposta de sucesso na multiculturalidade do cartaz e das actividades, bem patente na diversidade dos espectáculos apresentados em palco, e o ambiente de festa, de reunião familiar, que vivemos ao longo do fim-de-semana. Esperamos mais disto, para o ano, e traremos um amigo também.

Omar Souleyman @ Festival de Outono

Omar Souleyman @ Festival de Outono