E se a electrónica fosse apenas um conceito e a construção das estruturas que montam esse conceito em termos musicais fossem passíveis de serem sonhadas de forma orgânica, 100% humana e recorrendo “meramente” (as aspas não são um acaso) a instrumentos reais? Em Manchester é possível porque em Manchester tudo é possível.

Os GoGo Penguin não nascem a recordar discos de Joy Division ou The Smiths nem cresceram com as sombras do Hacienda e os ecos dos Stone Roses e dos Mondays a ressoar pela voz das musas que lhes sopraram ,até agora, para as pautas de quatro álbuns. Entre 2012 e o passado mês de Fevereiro, o trio mancuniano do pianista Chris Illingworth, do baixista Nick Blacka e do baterista Rob Turner, editou dois pares de discos –  Fanfaresv2.0 na Gondwana Records e Man Made ObjectA Humdrum Star na mítica morada jazz, a Blue Note Records -, em que exploram o encontro de várias coordenadas estilísticas e fazem afluir a partir dele um sopro de ar que se sente novo, que se sente distinto e sem morada concreta.

A Humdrum Star, o disco editado este ano, aterra descontraidamente nas mãos do jazz, do neo-clássico, do hip-hop, da música experimental, do rock mais ou menos post e da música electrónica – seja ele o break beat, o ambient ou o tecno -, sem estar ligada a nenhuma tomada, sem computadores, processadores ou outros maquinais objectos criadores. Imagine-se que Jonny Greenwood trazia o jazz para a linha da frente dos Radiohead, Yorke vocalizava sem voz da forma como só ele sabe enlouquecer, enquanto Nils Frahm se aliava aos Badbadnotgood e a Venetian Snares a pensar instrumentalmente o que fazer da herança de compositores clássicos, e os Massive Attack chamavam Eno para partilhar discos dos grandes mestres do jazz. Isto só para acender um farol de encaminhamento para o alto oceano de som que os GoGo Penguin fazem sempre sem em momento algum se colocarem na posição de projecto que segue qualquer tendência ou massa de pensadores de estéticas sonoras.

Ao lado de temas de uma superioridade emocional e técnica absolutamente ímpares e tocantes num disco hiper-activo de criatividade e excelência arrasadora – poucos discos este ano irão, certamente, tocar de forma tão triunfante os extremos da capacidade de experimentar e fundir uma simplicidade virtuosa -, o trio de electrónica acústica tem ainda a capacidade de pensar visualmente as suas composições e transforma-las em vídeos impressionantes e comoventes. Os GoGo Penguin lançaram ainda antes da edição de A Humdrum Star, o vídeo para “Bardo” realizado por Antony Barkworth-Knight e repetem a colaboração no agora revelado “Window”, o tema que encerra o quarto longa-duração da banda britânica.

Os GoGo Penguin estão neste momento envolvidos numa tour especial onde sonorizam ao vivo o filme Koyaanisqatsi – que explora a ligação e a relação entre o Homem e a Natureza – e reflectem para o novo trabalho com Antony a mesma narrativa temática num vídeo de animação em CGI assombroso sobre a reconexão da humanidade e uma nova forma de olhar e viver o planeta. Ambos os vídeos em baixo para descoberta urgente.